Jornada nas Estrelas: Strange New Worlds (1ª Temporada) – O Classic Trek de volta

Quando Star Trek: Discovery estreou em 2017 um gosto amargo esteve na boca da maioria dos fãs, mesmo para quem gostou, que foi meu caso, para além dos nomes, o seriado guardava pouca semelhança com aqueles que vieram antes. Especialmente nos visuais, e na linguagem narrativa. O tempo passou, algumas coisa foram corrigidas e Discovery se aproximou mais em umas coisas e menos em outras.

Com a chegada do segundo seriado da era contemporânea, chamada de Kurtzman Trek, Picard, a amargura ficou, na realidade, azeda. Muito irregular, as coisas, apesar de contarem com alguns dos mesmos personagens de 30 anos atrás, estavam ainda mais diferentes, em especial na narrativa. Nos últimos anos, as temporadas foram transformadas (e é uma forma hegemônica no entretenimento de massa) em filmes gigantes de 10 ou mais horas repartidos em segmentos.

Com tantas diferenças, ficou pouco ou nenhum espaço, para o formato que, de fato, conquistou e gerou a base de fãs, o que passou a ser chamado o Classic Trek, encerrado ao final de Enterprise, em 2005. Episódios com uma história própria, normalmente pontuados, quando bons, por discussões morais ou filosófica, alegorias ou metáforas a problemas contemporâneos, e caracterizado por um otimismo geral, não apenas social mas também na relação majoritariamente amistosa e saudável entre os personagens. Contrastando, e muito, com os personagens extremamente emocionais e perturbados de DIS e PIC.

Após o fracasso de Enterprise e, no geral, do declínio das tramas episódicas nas séries americanas, o formado da “Jornada Clássica” foi considerado algo extremamente ultrapassado e que Star Trek, se quisesse continuar viva, precisaria deixar isso para trás.

Felizmente, Strange New Worlds veio para mostrar que essa conclusão, hoje, se tornou completamente equivocada.

Agradou: Tudo, mas, em especial, os visuais.

O que me chamou mais a atenção de tudo de bom que tivemos nesta temporada foram os visuais. Todas as recriações da Enterprise posteriores ao seriado original foram péssimas (até mesmo nos filmes originais, ficou bem genérica e mudava totalmente de um para o outro), a de ST2009 de longe a mais ridícula, com uma série de tubos de vapor, engrenagens que não faziam o menor sentido, mas, em especial, as naves de Discovery, que não dialogavam em ada com o que vimos anteriormente.

Por sua vez, Strange New Words é como realmente eu imagino que seria uma versão da Enterprise original refeita em nosso tempo, como Roddenberry e Matt Jeffries fariam se pudessem. Tudo é maravilhoso, novo e retrô ao mesmo tempo. E tudo referentes aos visuais recebeu uma atualização na medida certa, o visual das espécies, os uniformes, as armas… perfeito.

É até difícil discorrer sobre o resto; com pontuais exceções, descritas a seguir, os personagens todos foram muito interessantes, e Pike, para mim já se estabeleceu como o melhor de todos os capitães. As narrativas foram maravilhosas, botando DIS e PIC no chão, foram capazes de desenvolver os protagonistas ao mesmo tempo que criaram tramas verdadeiramente de ficção científica.

Ainda, no que tange ao lore, continuou excepcional ao conseguir explorar, sem ferir demais o canon, espaços deixados em aberto pela Série Original, como o foco nos Gorn ou o namoro de Spock – aliás, que trabalho de Ethan Peck, é possível acreditar que ele realmente é uma versão mais jovem do personagem original.

É o Classic Trek de volta, e em plena forma! E a abertura é demais!

Não agradou: Herdar problemas do Classic Trek.

Infelizmente, se queremos muito a volta do que estabeleceu-se como a forma que entendemos ser o real Jornada nas Estrelas, é triste também notarmos que isso herda determinados problemas que existiam desde 1966. Felizmente, não relacionados ao ritmo narrativo, a combinação de episódios e serialização está ótima, e deve ser mantida, mas alguns clichês e situações acabaram herdadas.

O capítulo de “holodeck“, por exemplo, acaba tendo exatamente os mesmos problemas que tinham no século passado. A ingenuidade, a falta de ambição, as limitações, e de ser uma bobagem no geral; assim como o episódio cômico também não pode correr muito fora do que foi, com piadas muito comportadinhas. Da mesma forma, alguns episódios se propõe a serem grandes dilemas ou muito impactantes, mas acabam não chegando “lá”.

É preciso termos cuidado porque, ao herdar alguns dos mesmos problemas (felizmente não herdou a falta de serialização e o botão reset ao final dos episódios, volto a frisar), assim que passar o frisson de termos o que queremos de volta após duas décadas, o seriado (e Star Trek) pode voltar a ser considerado mais do mesmo – inclusive por nós.

Além disso, algumas coisas mais pontuais que me incomodaram:

  • Sobrenome de La’an: algo que desde sua revelação chamou muito a atenção dos fãs foi o nome de uma das tripulantes da Enterprise ser Noonien-Singh. Quais seriam os laços e implicações dela com Khan? Na realidade, nenhum. O seu desenvolvimento se orientou por uma relação com os Gorn e não com sua família.
  • Pouco uso de Una: Do piloto original, sempre me chamou a atenção Una. A primeira-oficial sempre me fascinou e acabei criando muito expectativa sobre como ela seria abordada no seriado. Depois do terceiro episódio, onde descobrimos sua origem e um grande dilema para ela, a Número Um praticamente despareceu da série e apenas esteve presente em pontas. Ao final da temporada, tivemos um gancho que pode preparar sua saída. Numa primeira temporada termos tantas dificuldades para colocar uma protagonista em cena é preocupante.
  • Dificuldades de transição para resoluções: Nos primeiros episódios da série, em especial, houve um problema recorrente na transição entre o clímax do episódio e a sua conclusão, gerando uma sensação de que diálogos foram cortados e de uma resolução corrida.
  • Enfermeira Chapel: ainda que linda e interessante, e com uma boa dinâmica com Spock, o que temos aqui uma personagem completamente diferente. Claro que a original teve desenvolvimento mínimo, mas ela está extrovertida demais aqui, não bate. Era o caso de ter criado uma personagem nova,

Episódios

S01E01: Strange New Worlds – O Capitão Pike está relutante em assumir novamente o comando da novíssima Enterprise após ter uma visão de seu trágico futuro; entretanto, o desaparecimento de sua melhor amiga e primeira oficial em uma tentativa de Primeiro Contato vai obrigá-lo a tomar uma decisão sobre seu futuro no espaço.

Desde o primeiro segundo, passando pela maravilhosa abertura, até os instante finais, o seriado mostra que veio com um objetivo muito claro que transportar à década de 2020 o Classic Trek e felizmente faz isso muito bem. Um raro piloto de apenas 45 min, ainda assim consegue apresentar de forma satisfatória um prólogo dos personagens, separados, e a aventura que os reunirá para o início de uma nova história.

O argumento central do episódio é excelente; SNW está conseguindo colocar tramas clássicas e adicionar um novo tempero, neste caso, um inédito e maravilhoso novo uso de tecnologia de dobra. Entretanto, apesar disso, o pouco tempo de tela para o primeiro capítulo pesa um pouco. Temos a sensação de estar tudo um pouco corrido, e não raras vezes entre um corte e outro, fica a impressão que pulamos alguma coisa.

O grande problema acaba ficando realmente com o arco de Una, o que ela estava fazendo lá? Era a comandante de uma outra nave temporariamente? Nunca ficou claro, da mesma forma, em uma grave confusão, é estabelecido sua nave, a Archer, estava sem a sua tripulação, e no final, essa questão ou não é retomada, ou a nave tinha apenas 3 tripulantes – neste caso deveria ser um shuttlecraft e aí o problema é a direção de arte.

Como episódio, há alguns problemas aqui e ali, mas como proposta de seriado, poucas vezes vimos Jornada nas Estrelas acertar tão bem como aqui.

Avaliação: 4.5 de 5.

Muito Bom (4,5/5)


S01E02: Children of the Comet – Um cometa está em rota de colisão com Persophone III, um pacato planeta desértico habitado por uma espécie primitiva. A Enterprise precisa desviar o objeto antes que ele cause uma tragédia de proporções planetárias e extermine a vida no local – entretanto, eles esbarram em uma raça alienígena que venera religiosamente aquele meteoro e quer impedir qualquer ação contra ele.

Cara, que prazer que é voltar a escrever sinopses como essas para um episódio de Jornada nas Estrelas atual. Só queria dizer isso.

Lembrando o ótimo Lutar ou Correr (ENT01x03) da primeira temporada de Enterprise, temos o foco em uma personagem secundária especialista em línguas e ganhamos um desenvolvimento dela que estava pendente há 50 anos. Mais um grande ganho o seriado – e tudo muito orgânico dado os problemas que serão enfrentados, e que levam a mais um traço original da oficial de comunicações, a música.

Novamente, o capítulo parece que vai uma direção óbvia, eu achei que seria muito parecido com O Mundo Finito (TOS03x13) da Série Original, mas conseguiram pegar uma premissa “reciclada”, na falta de melhor palavra, e dar uma abordagem nova. Maravilhoso. Entretanto, apesar de tudo muito bonitinho e encaixadinho, mais uma vez faltou uma revisão do roteiro.

Há um diálogo em que eles dizem que falta entender como “responder ao cometa”, mas no corte seguinte, o plano – que também não é explicado, apenas deduzido lendo as informações das telas de Spock – não tem nada a ver com estabelecer uma comunicação com aquele dispositivo. Grave erro do roteiro, pois toda a ação interior é estabelecida nesse sentido. Mas, felizmente, isso é rapidamente esquecido quando o desfecho do episódio provoca uma discussão sobre destino e futuro que se encaixa perfeitamente no arco de Pike.

Avaliação: 4.5 de 5.

Muito Bom (4,5/5)


S01E03: Ghosts of Illyria – A tripulação da Enterprise estava investigando uma colônia avançada e deserta dos Illyrianos mas uma tempestade iônica obriga o encerramento dos trabalhos; o Capitão e Spock não deixam o planeta a tempo e precisam esperar uma melhora no clima já que a interferência é alta para os transportadores. Sob o comando da Número Um, por sua vez, a nave enfrenta uma estranha doença que diminui a taxa de Vitamina D no corpo.

Infelizmente o título, mesmo sendo apropriado, já entrega boa parte do mistério acerca dos eventos que levaram ao desaparecimento dos colonos assim que os sintomas da doença vão aparecendo. Provavelmente sabendo disso, o episódio então aposta por trazer revelações pesadas dos personagens do seriado.

Este esforço é magnífico, apesar de serem personagens de 60 anos, são praticamente uma tábula rasa, e é maravilhoso vê-los recebendo sólidos traços e histórias de origem. É para tirar o chapéu. (Exceto a decepcionante, até o momento, origem simplória para a tripulante com o nome de Khan.) E, melhor ainda, todos as novas características deles são apresentadas de forma orgânica com os eventos daquela aventura.

Em nenhum momento, ao contrário do que ocorre em Discovery ou Picard, sentimos os traços dos personagens serem enfiados goela abaixo. O episódio foi construído para explicar um ponto importante de Una, claramente, mas há uma estorinha rolando ao fundo e a revelação sobre a imediata parece parte integrante dela. Infelizmente, achei que as revelações, por sua vez, forçaram um pouco a mão a ponto de se tornarem inverossímeis.

Apesar do precedente (ou melhor, do “suscedente”) de um personagem de DS9, é pouco crível que ninguém conhecesse aquelas características da Imediata da nave, ou que ninguém desse por sumida uma determinada criança. Da mesma forma, a aceitação dos demais de tudo que ocorreu, também força mais um pouquinho o limite do verossímil.

Avaliação: 3.5 de 5.

Bom (3,5/5)


S01E04: Memento Mori – Durante uma missão de rotina no abastecimento de uma colônia avançada, nossos heróis se deparam com uma tragédia após ela sofrer um ataque violentíssimo dos Gorn. Este é um episódio que mais uma vez se dedica a explorar pontos menos abordados da Série Original que não foram retomados nas séries subsequentes, neste caso a violenta espécie reptiliana, e mais uma vez é extremamente bem sucedido.

Radicalmente diferente de Discovery, SNW consegue ir paulatinamente dando espaço e sustância aos personagens secundários de forma orgânica, desta vez vamos conhecer o passado da Tenente La’an. E tudo é muito interessante, ainda que até o momento é decepcionante a falta de implicação de seu parentesco com Khan.

O episódio vai se desenvolvendo de forma sempre tensa e, em todos os momentos, sentimos a Enterprise ameaçada. O que fortalece os personagens e suas decisões, sabemos o peso do que cada um deles precisa pensar e agir, enfrentando cada vez problemas mais complexos. E, além da ponte, os problemas se espalham em dois núcleos, um no compartimento de carga e outro na enfermaria, que, apesar de não contribuírem tanto assim ao desenvolvimento geral, também não prejudicam o rimo, sempre se mantendo igualmente tensos.

Por outro lado, e não pode ser coincidência, novamente o roteiro apresenta problemas exatamente no mesmo ponto de todos os episódios até aqui: quando os personagens descobrem a resolução para o problema.

Mais uma vez temos uma sensação estranha, de conversa pela metade, quando dois personagens tem uma “visão do passado”, para evitar spoilers excessivos, em uma nave auxiliar. Além de uma convenientíssima tradução tanto de alfabeto quanto de linguagem que fica disponível (forçaram nessa), os dois simplesmente não levam sua missão até o fim e não se toca mais nesse assunto. Na cena seguinte, já estão na ponte confabulando uma nova alternativa que nem é diretamente relacionada à solução encontrada pelos dois. Muito estranho sempre patinarmos nesse ponto.

Avaliação: 4 de 5.

Muito Bom (4/5)


S01E05: Spock Amok – Enfrentando problemas de relacionamento com T’Pring, nosso oficial de ciências planeja um final de semana romântico com sua noiva enquanto a Enterprise está recebendo reparos após a dura batalha enfrentada no episódio anterior. Entretanto, uma querela diplomática dividirá sua atenção de seu noivado.

O primeiro episódio dedicado ao humor, não apenas no seriado, mas de todo o Kurtzmann Trek (exceto por Lower Deks), é um belo aceno ao Classic Trek. Particularmente não sou fãs de capítulos cômicos, mas achei bastante saudável rever este traço. Como sempre, acredito que rende capítulos, normalmente, medianos, e foi o caso também deste aqui ainda que com vários destaques.

Novamente, SNW é ótima em explorar pontos “cegos” de TOS: agora apresentando mais sobre o relacionamento de Spock e T’Pring – sei que a TOS dava a entender que eles não se viam desde crianças, mas acho um retcon legal o que está se fazendo. Infelizmente essa dinâmica de casal vira uma bobeirinha aqui e ali, típica de comédia romântica e os risos vão depender muito mais do expectador do que do material.

Da mesma forma, temos um enredo B sobre a Número Um e a Tenente Singh que pouco acrescenta e o divertimento novamente vai depender bastante de você gostar ou não. Ainda assim, o episódio entretém bem (e planta sementes para relacionamentos que de fato acontecem na TOS), especialmente devido a trama política de plano de fundo que é muito sagaz.

Avaliação: 3 de 5.

Bom (3/5)


S01E06: Lift us where suffering cannot reach – O capitão Pike sofre um curioso deja-vu: ao resgatar uma pequena nave de transporte nas imediações de um mesmo planeta onde há havia feito isso, ele descobre ter salvado, da mesma forma, uma mesma pessoa vários anos atrás – uma bela política encarregada de proteger e guiar uma importante criança.

Apesar de visuais muito interessante, intenções e panos de fundos bem intrigantes, é um episódio que não chega “lá” em nenhum momento. Temos dois objetivos, criar um dilema pessoal para Pike, ao reencontrar um antigo interesse amoroso, e criar um dilema moral sobre o destino da criança e, infelizmente, não refino suficiente no roteiro para criar grande peso nem em uma coisa nem outra.

Sobre o dilema moral, ele tem seus méritos, especialmente por uma boa subversão do que se trata o “Primeiro Servo”, mas se torna enfraquecido porque acaba tendo um foco muito individual: a decisão não se torna questionável porque aquela sociedade é assim, mas sim porque a criança é boazinha e filha de outro personagem. Lembrando um pouco a trama da filha de Bortus em The Orville: o seriado aposta que sua mensagem é tão moralmente inquestionável que não se preocupa em aprofundar minimamente as motivações das coisas – inclusive os personagens dizem que não sabe porque as coisas funcionam daquele jeito – deixando tudo frágil e anticlimático.

Já o dilema pessoal, deveria ser relacionado a uma chance apresentada a Pike sobre sair da Frota Estelar e impedir seu triste destino, mas, começando pelas coincidências que são realmente apenas coincidências, também não vai muito longe e o romance é pouco sólido; nunca parece que o capitão está, de fato, dividido. O resultado é um capítulo com boas e claras intenções mas que não empolga.

Avaliação: 3 de 5.

Bom (3/5)


S01E07: The Serene Squall – Respondendo ao pedido de uma antiga conselheira da Federação, a Enterprise se dirige para uma perigosa zona de fronteira buscando pistas sobre um comboio civil desaparecido na região, provavelmente vitima de piratas. E, ao mesmo tempo, Spock enfrenta uma crise em seu noivado.

SNW se mantém lembrando muito a estrutura do Classic Trek, aqui tudo não passa de uma historinha de fundo para desenvolver os personagens de Chapel e Spock. Mas felizmente tudo é extremamente bem conectado (muito diferente de PIC e DIS) e as coisas vão fluindo e se amarrando de forma orgânica – ainda que cause certo estranhamento algumas coisas aparecendo no início do capítulo.

Por outro lado, a ação central do episódio é mediana, e tende ao humor apesar da situação muito crítica, com eventos que acrescentam muito pouco ao episódio e aos personagens, ficando muito claro como são apenas acessórios ao desenvolvimento, e se resolve clichês de vilões trapalhões. Nesse sentido, estou ficando triste com o pouco uso da Número Um na série.

Chegando ao final, por sua vez, o capítulo engrena de uma forma excelente após a principal reviravolta, mesmo se tratando de uma crise romântica, e encerramos com um dos melhores cliffhangers de toda a Jornada nas Estrelas com o retorno de um esquecido personagem.

Avaliação: 3.5 de 5.

Bom (3,5/5)


S01E08: The Elysian Kingdom – Ao investigar uma nebulosa, a Enterprise subitamente é transformada em um reino de fantasia saído do livro o qual Dr. M’Benga lê para sua filha, Rukiya. Para quem tanto queria o retorno do Classic Trek, este é o episódio para dizer “cuidado com o deseja”.

Brincadeiras a parte, mais uma vez temos muito do classic trek em Strange New Worlds com uma espécie de episódio de holodeck antes do holodeck existir (créditos ao meu amigo Carlos Lembo). No geral, são episódios pouco inspirados e meus menos favoritos dos seriados e aqui não foge muito desse padrão de temática, ainda que tudo funcione razoavelmente.

Os personagens estão em “encarnações fantasiosas” que funcionam muito bem com o que eles são realmente (incluindo as ironias) e o resultado se provou uma saída muito elegante (e muito clássica) para a trama de Rukiya que começava a se tornar repetitiva.

Avaliação: 2.5 de 5.

Mediano (2,5/5)


S01E09: All Those Who Wander – Em rota para entregar suprimentos, a Enterprise passa pelo local de desaparecimento da USS Peregrine e decide deixar uma equipe de busca no local, composta pela maioria dos protagonistas. Uma vez no desolado planeta onde a nave aliada caiu, Jornada na Estrelas encontra Aliens – O Resgate.

Contando com toda uma linguagem de filmes de terror, ao criar ambientes escuros e personagens separados diante de uma ameaça incompreensível, o episódio é competente do começo ao fim nesse sentido. Sempre sentimos a tripulação em perigo, ainda que por opções narrativas muito infelizes, começando nos primeiros segundos de exibição, através da própria recapitulação, e os personagens secundários introduzidos, o roteiro entrega todas as baixas que teremos ao longo da aventura. E não falo apenas de redshirts, mas incluindo um protagonista.

Mesmo com esse erro imperdoável para uma estória baseada em medo e tensão, toda a jornada vale a pena. Alguns elementos pontuais, como um alienígena desconhecido, ou desenvolvimento de lore para raças já conhecidas, e mesmo referências a outras obras da ficção, em especial, o citado Alien – por exemplo, o sinal de socorro na realidade ser um sinal para se afastarem do local – fazem deste aqui um capítulo memorável.

Avaliação: 4 de 5.

Muito Bom (4/5)


S01E10: A Quality of Mercy – O capitão Pike acaba conhecendo um dos jovens envolvidos no acidente que acabará com sua vida em alguns anos; diante disso ele pretende tomar uma decisão de evitar que aquilo aconteça ao garantir que nenhuma da vítimas esteja lá na hora. Subitamente, ele é visitado por seu “eu do futuro” que procura demonstrar as consequências dessa alteração na linha do tempo que ele está prestes a fazer.

Queria contar o mínimo possível deste episódio, que te surpreende a cada instante ao trazer mais e mais conexões com a Série Original – aqui, na realidade, teremos uma versão alternativa de um dos mais importantes episódios de TOS mas com a Enterprise ainda comandada por Pike.

Essa re-imaginação é maravilhosa – apesar de eu particularmente não concordar exatamente com tudo o que acontece em tela; no fundo fico chateado em saber que aquele é o resultado de um capitão tão formidável quanto Pike no comando. Especialmente em visuais, Strange New Worlds continua nos convencendo que é uma real versão de como a Enterprise, e seu universo, de 1966 se pareceriam em 2022, em especial gostaria dar um destaque aos uniformes dos inimigos (sempre achei a verão de TOS muito mais interessante do que àquela se firmou de TNG para frente).

O seriado fecha de forma competente sua primeira temporada, ao demonstrar como Pike não pode fugir de seu futuro, entretanto, além do fato de tentar te convencer que ele é um pior capitão que seu sucessor, o cliffhanger me incomodou. A personagem de Una me pareceu ter ficado muito de escanteio nos últimos capítulos e acredito que ele foi motivado provavelmente para preparar a saída da atriz do seriado, e só, desperdiçando uma das personagens mais interessantes de Strange New Worlds.

Avaliação: 5 de 5.

Excelente (5/5)


Melhor episódio

A Quality of Mercy – Uma tentativa relativamente corriqueira em Jornada nas Estrelas, mas nem sempre bem sucedida, é colocar um personagem de uma série para viver um episódio ou situação originalmente ocorrida em outra obra do universo. Provavelmente aqui tivemos o melhor exemplar disso já feito.

Pior Episódio

The Elysian Kingdom – Tudo em excesso faz mal a saúde, inclusive a nostalgia pelo Classic Trek. Temos aqui um episódio de holodeck antes dos holodecks serem parte dos acessórios básicos de uma nave estelar zero quilómetro da Frota Estelar. Não chega a ser ruim, pois tudo funciona direitinho nas encarnações fantásticas dos tripulantes, e não se torna uma perda de tempo já que resolve um arco, ainda que a opção de que apenas um único personagem se lembre do que houve caminhe um pouco nessa direção.

Mas é bem chatinho, como todos dessa natureza, especialmente porque, no limite, é um capítulo que se passou apenas na cabeça do Doutor M’Benga, seja pela forma das alucinações como por seu desfecho, um recurso sempre péssimo e preguiçoso.


Últimos Posts

Sliders – Dimensões Paralelas (2ª Temporada)

Mesmo em apenas seu segundo ano, o seriado deu fortes sinais de desgaste: aparentemente usou todas as ideais mais sólidas para realidades alternativas na temporada anterior, e precisou ser muito mais extravagante (e confuso) desta vez.

Sociedade Paliativa

Nos dias atuais, a cultura dominante é de evitar a dor e o confronto a qualquer custo, e isso tem um preço muito caro para o desenvolvimento da humanidade – é o que nos diz Byung-Chul Han.

Publicado por Lucas Palma

Paulistano, desde que me lembro por gente fascinado pelas possibilidades do futuro, em games, filmes e seriados, herança paterna e materna. Para surpresa geral, ao final da juventude descobri fascínio também justamente pelo oposto, me graduando e mestrando em História, pela Universidade Federal de São Paulo. Sou autor de Palavras de Revolução e Guerra: Discursos da Imprensa Paulista em 1932.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: