Uma Temporada de Facões


Uma temporada de facões: relatos do genocídio em Ruanda

Tradução: Rosa Freire d’Aguiar – Companhia das Letras

Data de Lançamento: 2003 – Minha Edição: 2005 – 283 páginas


Entre os meses de abril e junho de 1994 um dos eventos mais cruéis da história da humanidade tomou forma num dos países mais pequenos e mais remotos do mundo. Em um canto esquecido da África mais de 800 mil pessoas foram assassinadas em menos de 3 meses no episódio que ficou conhecido como Genocídio de Ruanda.

Este livro resgata esta história a partir de depoimentos de pessoas que vivenciaram aqueles eventos, mas não de sobreviventes, e sim com testemunho de assassinos.

Estes assassinos são alguns dos poucos envolvidos no massacre que foram presos e estão cumprindo pena. Os que nunca foram processados e continuaram a viver sua vida após o Genocídio não fornecem material para pesquisa: desconversam sobre o período e têm respostas prontas. Jean Hatzfeld, jornalista franco-malgaxe, só encontrou assassinos dispostos a relatar seus atos entre os presidiários.

O livro tem uma narrativa intercalada, em um capítulo temos o autor falando – contando de observações que ele fez sobre os entrevistados, como ele abordou, algumas notas sobre o Genocídio e Ruanda para melhor contextualização – e em outros são os depoimentos. As falas estão organizadas por recortes temáticos; um capítulo com depoimentos sobre o primeiro assassinato cometido; outro contando como eles aprenderam ou ensinaram a matar, sobre a rotina dos dias, sobre a comida, sobre saques e pilhagens, dentre outros temas.

O que é narrado pelos entrevistados é algo que as vezes parece fugir da realidade. São cenas que seriam difíceis até de serem incluídas em filmes de terror. Berçários sendo invadidos para assassinatos de recém nascidos, que são arremessados contra as paredes; igrejas sendo queimadas com gente viva dentro; pessoas desmembradas correndo em locais públicos; para citar apenas os exemplos “mais gráficos”. Normalmente as mortes eram cometidas com facões afiados.

A sensibilidade de Hatzfeld nessa seleção de depoimentos é sem paralelo. Não dá para imaginar uma entrevista mais difícil do que conversar com as pessoas contando esse tipo de coisa mas ele consegue resgatar uma humanidade dentro daqueles homens que em certos momentos faz com que nos comovamos com a tragédia também pela ótica deles; pessoas normais e muito simples se tornando homicidas ferozes. Isso é fundamental para tentarmos entender como aquilo foi possível.

Sem nenhum tipo de organização sistemática ou estatal, apenas algumas lideranças da milícia paramilitar Interahamwe, pessoas saíram de casa por três meses consecutivos com o único propósito de matar outras. Como relatado nos livros, foi uma espécie de grande festa do horror: ninguém trabalhava, e com as pilhagens de bens e animais dos mortos, foram meses de danças, churrascos, bebedeiras e assassinatos.

Claro que isso não foi fruto de selvageria ou maldade dos ruandeses.

Por séculos, a etnia Tutsi, minoritária, governou a região e subjugou a hutu, majoritária. Tinham privilégios na posse de terras melhores, que implicava tanto na organização do trabalho – os hutus eram empregados dos tutsis – quanto, por exemplo, na alimentação – apenas tutsis tinham acesso à carne bovina. Na colonização alemã e belga, os europeus construíram a dominação através dessa hierarquia centenária já estabelecida, fortalecendo ainda mais os tutsi.

Hoje um memorial, a Igreja Católica de Ntarama, cerca de 90km da capital Kigali, foi palco da morte de 5 mil pessoas de uma só vez; primeiro mutiladas e depois queimadas.

Com a Independência em 1962, os Hutus foram exigindo e conquistando maior participação no novo país. Para canalizar essa radicalização no “caminho certo”, sem se aproximar da União Soviética, os grupos que foram patrocinados pelas ex-metrópoles para estar no poder eram cada vez mais de extrema-direita. Durante todas estas décadas, o discurso agressivo característico desse campo foi reforçado e martelado na população hutu contra os tutsis. Nos depoimentos, os assassinos nem sabem quando começou o ódio à etnia, mas desde que eles se lembram por gente a mensagem contra os tutsis era passada adiante.

No início de 1990, o principal partido de oposição, com uma direita mais moderada englobando as duas etnias, iniciou uma guerrilha. A França enviou tropas para garantir a “estabilidade” do país, mas o golpe foi sentido. A propaganda se acentuou e convenceu os Hutus da necessidade do extermínio dos tutsis; o que explodiu após a morte do então presidente em um ataque fatal contra o avião em que ele viajava.

Excelente (5/5)

Um mergulho num dos eventos mais sombrios da história da humanidade através de depoimentos dos próprios assassinos, contando com uma sensibilidade excelente do autor seja nas entrevistas, como na seleção e muito na redação.

Hotel Ruanda: lançado em 2004, este filme é uma das narrativas mais conhecidas sobre o Genocídio. Conta a história real do Hotel de luxo Mille Collines, que se tornou uma espécie de “santuário” durante os assassinatos. Através de propinas e troca de favores, o gerente do Hotel, Paul Rusesabagina, conseguiu abrigar cerca de mil tutsis por algumas semanas até a evacuação para zonas controladas por milícias favoráveis à etnia.

Psicologia Coletiva: um dos aspectos mais interessantes da abordagem que o autor teve ao entrevistar os envolvidos era que as perguntas precisavam ser feitas de forma coletiva. Do contrário, ele não tirava nada dos depoimentos. Se ele perguntasse, “o que você fez aquela manhã”, a pessoa apenas dizia que “após tomar um café saiu para trabalhar”; se ele perguntasse, “naquela manhã, o que vocês fizeram”, o entrevistado se sentia mais encorajado a contar algo relativo ao Genocídio.


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Publicado por Lucas Palma

Paulistano, desde que me lembro por gente fascinado pelas possibilidades do futuro, em games, filmes e seriados, herança paterna e materna. Para surpresa geral, ao final da juventude descobri fascínio também justamente pelo oposto, me graduando e mestrando em História, pela Universidade Federal de São Paulo. Sou autor de Palavras de Revolução e Guerra: Discursos da Imprensa Paulista em 1932.

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