O Enigma de Andrômeda


O Enigma de Andrômeda – Michael Crichton

Tradução: Fábio Fernandes – Editora Aleph

Data de Lançamento: 1969 – Minha Edição: 2018 – 304 páginas


Dentro da ficção científica há uma espécie de subgênero que foca na parte “científica”, não exatamente na precisão dos conceitos apresentados ou criados, mas na metodologia da narração e na especulação. O primeiro que vem a mente nesse sentido é Solaris. O clássico, na realidade, foca muito mais em como estão tentando entender o contato com aquela forma de vida do que nos contatos em si.

Aqui, em o Enigma de Andrômeda, a pegada não é só muito parecida, como vai mais além. Em certos pontos você lê relatórios, análises, exames que os personagens estão realizando durante os eventos. Tudo para desvendar uma centena de mortes ocasionadas devido a queda de um satélite numa cidade minúscula do Arizona.

Praticamente toda a ação do livro é concentrada em quatro cientistas reunidos para entender o que houve com as vítimas, mortas após contato com alguma coisa trazida do espaço. Cada um com sua especialidade, durante o livro são apresentados os procedimentos realizados por eles de acordo com seu campo de pesquisa.

Aliás, o foco da obra é a descrição dos procedimentos, equipamentos e do local destinado ao estudo do organismo potencialmente alienígena. O foco no uso da tecnologia faz dela uma das percursoras do gênero tecnothriler – como a série Mr. Robot, por exemplo. E um dos grandes méritos do livro, que o coloca na prateleira das obras primas, é que mesmo sendo focado na tecnologia, algo que já é fadado a ser datado de antemão, isso não incomoda em nenhum momento.

Mr. Robot: A Sociedade Hacker (Primeira Temporada)

Um tecnothriller que chegou com uma mensagem muito atual, uma dura crítica à crise de 2008/09. Em sua primeira temporada consegue colocar alicerces fortes para seu sucesso, com uma boa premissa, personagens e reviravoltas; mas com um ritmo muito irregular.

Todo o suspense criado em torno daquele cotidiano da pesquisa e da crise, que se baseia no uso das instalações e procedimentos, é conduzido de forma que nos mantém engajados mesmo com tecnologias ultrapassadas há mais de meio século.

O foco nesses aspectos procedimentais, por outro lado, acaba criando muita expectativa por um final, que se mostra muito broxante. Sem dar spoilers, digamos que não houve muita interferência dos personagens para chegarmos a solução. Isso irrita muito na conclusão porque durante toda a obra, para nos manter interessados, o ator utiliza um recurso barato de dizer frases como “eles se arrependeriam depois“, “não perceberam que estavam errados“… sendo que esse “depois” nunca chega.

É um livro que vale muito mais pela jornada que pelo destino (como quase todos os grandes), embora já me deparei com muita gente dizendo ser uma viagem muito tediosa. De fato, pode ser, por isso reitero que seu interesse na Ficção tem que ser mais afinado com tecnothrillers e “dramas procedimentais”, na falta de melhor expressão, para aproveitar Enigma de Andrômeda em sua totalidade.

Muito Bom (4,5/5)

Uma obra pioneira; mesmo focado em tecnologia não é um livro datado. Entretanto, todo o suspense é criado em cima de instalações, equipamentos e procedimentos; o que eu acho muito interessante, mas não é pra qualquer um. Deixa a dever apenas com o final.

Faculdade de Medicina: o livro foi concebido e escrito durante o curso de medicina feito pelo autor, Michael Crichton, que se formou no mesmo ano de lançamento (embora nunca clinicou). Isso é fortemente sentido na obra, cujos protagonistas todos são cientistas da área de biológicas, sendo dois médicos. Ele consegue ser muito convincente na metodologia de investigação feita pelos personagens; em suas decisões e análises parece que estamos vendo escritos de um médico em prática.

Luxo: esta edição da Aleph de 2018 é extremamente luxuosa mesmo sendo de capa comum, com artes incríveis nos elementos pré e pós-textuais.


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Publicado por Lucas Palma

Paulistano, desde que me lembro por gente fascinado pelas possibilidades do futuro, em games, filmes e seriados, herança paterna e materna. Para surpresa geral, ao final da juventude descobri fascínio também justamente pelo oposto, me graduando e mestrando em História, pela Universidade Federal de São Paulo. Sou autor de Palavras de Revolução e Guerra: Discursos da Imprensa Paulista em 1932.

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