Neuromancer

Neuromancer – William Gibson

Data de Lançamento: 1984 – Minha Edição: 2016 (5ª) – 319 páginas


A Ficção Científica é um documento histórico, ela não diz nada sobre o futuro, ela diz sobre o que o presente pensa sobre o futuro. Nos anos 70, a partir da crise do petróleo de 1973, que encerra os “anos dourados” do século XX, o que se esperava do futuro passou a ser menos brilhante que normalmente era na mentalidade popular. Em especial nos Estados Unidos, abalados pela derrota no Vietnã e pelo escândalo de Watergate.

O futuro, no geral, passou a ser encarado com uma forma mais sombria, mas num limiar interessante que não chega a nos fazer esperar uma distopia. Na realidade, esperar uma coisa pior, a prolongação dos problemas contemporâneos: drogas, crimes, desemprego, desigualdade… As transformações tecnológicas continuariam avançando, mas como um rolo compressor sobre a sociedade humana. Ao invés de modificá-la de uma grande forma, para uma utopia ou distopia, a humanidade mudaria mais na forma que no conteúdo.

Incapazes de acompanhar o desenvolver científico, a tecnologia seria mais um fardo que apenas ressaltaria nossos defeitos. Continuaríamos a viver com eles mas apenas através de uma roupagem “moderna”, essa sim, cada vez mais nova, mais rápida e mais indomável. É nesse caldeirão que nasce o gênero Cyberpunk, explodindo nos anos 80; e aqui em Neuromacer temos quase o “tipo-ideal” do que é uma obra desse estilo.

Difícil imaginar um livro que consegue reunir de forma tão exemplar as características de um gênero como este aqui. É uma obra perfeita nesse sentido, ao contar a história de Case: um hacker que havia sido aposentado compulsoriamente ao sabotarem sua capacidade de se conectar à internet (através de acessórios ligados diretamente ao seu cérebro, que o transportam para uma realidade virtual). Ele é abordado por uma outra organização criminosa que devolve suas habilidades cibernéticas em troca de trabalhar para ela.

A partir dessa premissa, se desenvolve todo um universo novo, praticamente alienígena, seja em localização, ou personagens, ainda objetos e até em vocabulário. Não há uma página que você não se depara com uma palavra (conceito) inventada: Simstim, Sprawl, octógonos, Zion, ICE, Black ICE, Deck, Dex, Sense/NET… são algumas delas. Algumas eu ainda não consegui entender exatamente do que se trata.

Isso, apesar de atestar a genialidade do autor – pois todas são baseadas em algo real, fazem sentido e têm coerência interna no texto – infelizmente, acaba tornando a leitura da obra bem difícil. Não há um segundo de descanso para você assimilar o que aprendeu no capítulo anterior.

Por exemplo, quando você aprende sobre uma determinada seita religiosa, acontece quando é usada simultaneamente a um ataque cibernético, na primeira vez que você vê o personagem atuando naquela realidade virtual – uma narrativa muito complicada de entender apenas pela leitura, que apenas está descrevendo parte do cenário. Ainda, da metade para o final do livro, começam a entrar em cena naves e estações espaciais, coisas que, posso não ter lido com atenção, não sabia que existiam naquele universo.

Da mesma forma que no Cyperpunk a tecnologia é um rolo compressor, amassando sem dó a humanidade, que mal consegue assimilar uma novidade tecnológica ou moda de consumo, antes que ela já se torne ultrapassada, é exatamente assim que o leitor também se sente ao ler Neuromancer. Isso significa que é uma obra extremamente competente em te imergir naquele gênero – ao custo de uma leitura não muito agradável.

Muito Bom (4/5)

É um clássico, senão “o” clássico do seu gênero. Reúne todas as características do cyberpunk em uma estória interessante. Entretanto, justamente por isso, acaba introduzindo conceitos, vocabulários e cenários inéditos um atrás do outro, em um verdadeiro intensivo do gÊnero, transformando o livro numa leitura difícil.

Adaptações: um atestado da complexidade desse livro é justamente a falta da história ser adaptada em outras mídias. Além de um obscuro jogo de Amiga, Commodore e DOS, lançado em 1988, todas as outras adaptações são de natureza parecida: histórias em quadrinhos e peças radiofônicas (que não são muito mais que recitais de leitura). Filmes e até mesmo musicais pipocam vez ou outra como possibilidades mas logo são desmentidos.

Blade Runner: baseado na distopia de Philip Dick, Androides sonham com ovelhas elétricas?, o filme lançado em 1982 acabou incorporando quase que totalmente a estética Cyberpunk, tendência da Ficção Científica do período e foi assistido no cinema por William Gibson, o autor de Neuromancer. Ele estava amando o filme até mais ou menos uns 20 minutos de exibição… até perceber que o motivo de gostar tanto é que era exatamente um tipo de mundo como aquele que ele desejava criar no livro, que estava no estágio inicial de escrita. Acabou reescrevendo aquele trecho várias vezes para tentar se distanciar o máximo o possível do longa de Ridley Scott.


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Publicado por Lucas Palma

Paulistano, desde que me lembro por gente fascinado pelas possibilidades do futuro, em games, filmes e seriados, herança paterna e materna. Para surpresa geral, ao final da juventude descobri fascínio também justamente pelo oposto, me graduando e mestrando em História, pela Universidade Federal de São Paulo. Sou autor de Palavras de Revolução e Guerra: Discursos da Imprensa Paulista em 1932.

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