Viagem à década sem Copa

Anos 40: uma viagem à década sem Copa – Roberto Sander

Data de Lançamento: 2004 – Minha Edição: 2004 – 296 páginas


No esporte contemporâneo, em especial, temos noções de ciclos, normalmente Olímpicos. Tudo o que se realiza para um atleta ou categoria tem como objetivo o desempenho para os próximos jogos – já no futebol, esse esporte singular, o ciclo é por conta das Copas do Mundo, disputadas desde 1930. Dito isto, temos um pequeno buraco na história do futebol: a década de 1940.

Devido a II Guerra Mundial as copas de 1942 e 1946 foram canceladas – a de 1942 provavelmente seria sediada pela Alemanha e a de 46 não foram cogitadas candidaturas a tempo. Isso significa que jogadores que estariam no pico de suas carreiras entre 1938 e 1950 não tiveram a oportunidade de brilhar na principal competição do esporte. No caso do futebol brasileiro isso acaba sendo ainda pior, porque o ano de cinqüenta foi o mais marcante da nossa história futebolística.

Com o Maracanazo – a conquista do título pelo Uruguai sobre o Brasil no Maracanã – a trajetória nacional do futebol se dividiu em um antes e um depois dele: o clima após aquela partida foi apocalíptico. Havia medo que os brasileiros simplesmente parassem de gostar de futebol e a seleção até mudou de camisa – antes jogava com uniforme branco. Além disso, com exceção do volante Bauer, ninguém mais que atuou naquele jogo foi para a Copa seguinte – vários nunca mais foram convocados.

Isso contribuiu ainda mais para nublar os anos 40, que justamente correspondeu ao ciclo que terminou – de forma catastrófica – naquela tarde de 16 de julho. Entre a grande exibição de 1938, com o terceiro lugar na Itália, e o vice de 1950 foram 12 anos esquecidos no fundo de uma gaveta; e é fácil perceber isso: você consegue lembrar quais foram os craques dos anos 40?

Inaugurado em abril de 1940, o Estádio Municipal do Pacaembu foi o maior estádio do Brasil (e da América Latina) por toda a década – até a inauguração do Maracanã em 1950.

O livro de Sander faz o possível para resgatar aqueles nomes em um cenário ainda muito difícil do futebol brasileiro: os primórdios do profissionalismo em um esporte ainda completamente fracionado entre os estados. A temporada se resumia nos campeonatos estaduais. E, por longa margem, quase que exclusivamente nos campos de São Paulo e da capital do Rio de Janeiro. E desta forma, boa parte do livro é dedicada a narrar àqueles torneios – com mais atenção ao Rio.

Também há um espaço muito bom para a contar sobre a seleção brasileira naquele período, que acabou se dedicando integralmente a torneios amistosos e competições sul-americanas: centradas, mais do que nunca, na rivalidade com a Argentina e Uruguai. Estávamos crescendo muito, mas ainda éramos a segunda força do continente: foram apenas 3 vitórias em 11 jogos contra a primeira e honrosas 6 vitórias contra o segundo naquela década.

Apesar de fazer exatamente o que se propõe, resgatando os principais jogos e episódios daquela década – como a contratação de árbitros ingleses para apitar jogos no Rio para aprimorar os juízes brasileiros – e alguns personagens dos anos 40 que se tornaram completamente esquecidos como Tesourinha (Inter/RS), Ademir Queixada (Sport, Vasco, Flu), o técnico da seleção Flávio Costa ou Ary Barroso como jornalista esportivo, os grandes jogadores do período destacados pelo livro acabam parcialmente endossando a narrativa de década esquecida.

O grande astro no livro é Leônidas da Silva, que ganhou tudo pelo São Paulo no período, mas é considerado uma revelação dos anos 30, grande jogador da copa de 1938, assim como os astros do Corinthians, Cláudio e Servilho. Da mesma forma, Oberdan Catani, Nilton Santos ou Jair Rosa Pinto, acabam sendo identificados hoje como grandes jogadores dos anos 50. O único craque que, genuinamente, teve seu ápice nos anos 40 e que tem um destaque maior na obra é Heleno de Freitas. Além disso, a narrativa é restrita apenas ao futebol brasileiro, com raras pinceladas sobre outros países (o título não compreende a delimitação).

Entretanto, ao final de uma agradabilíssima leitura, você realmente tem a sensação de testemunhar um resgate precioso da nossa história.

Muito Bom (4/5)

Uma leitura muito agradável de uma série de anedotas, campeonatos e jogos brasileiros ocorridos na década esquecida do futebol, entretanto, a obra é delimitada pelo próprio contexto da época; apenas sobre o futebol brasileiros e focado nos campeonatos estaduais de Rio e São Paulo.

Taça Jules Rimet: ela ainda não tinha esse nome, mas já era “a” copa do mundo. Conquistada pela Itália em 1938, estava de posse do governo Mussolini (que na época ainda era bem visto por vários países) quando irrompeu o conflito. Havia conversas sobre a Alemanha tentar realizar a edição prometida a ela em 1942 com seus países aliados e fantoches, e entregar a copa. Para preservar a taça, o presidente da Federação Italiana, Otorino Barrasi, escondeu o troféu durante toda a guerra e entregou a FIFA.

São várias as versões de como ele realizou tal feito; teria a contrabandeado à Suíça (versão que Sander opta em apresentar), teria escondido na fazenda de conhecidos ou teria sido entregue ao Vaticano.

Biriba: em mais uma das tantas décadas sofridas do Botafogo, mesmo tendo um de seus maiores jogadores em campo, Heleno, a Estrela Solitária quase passou os anos 40 em branco; conquistando apenas o Campeonato Carioca de 1948 – já sem Heleno no time.

Biriba e o presidente do Botafogo, Carlito Rocha, na conquista do campeonato carioca de 1948, na foto de capa de alguns jornais.

Na realidade a grande estrela do time acabou sendo o vira lata Biriba, cachorro de um ex-jogador chamado Macaé, que frequentava General Severiano acompanhado de seu fiel cão. O bichinho caiu nas graças do time e do presidente do Botafogo, Carlito Rocha, foi tratado como amuleto, passando a ser quase que funcionário do clube naquele torneio: presença obrigatória nos treinos e jogos em casa, acompanhando o time no banco de reservas e dentro do vestiário. Não raras as vezes ele entrava em campo para brincar com os jogadores durante a partida; diziam os adversários que tudo era proposital para quebrar o ritmo do jogo.

A “força do interior”: um mito que a pesquisa de Roberto Sander ajuda a derrubar é o suposto equilíbrio entre os times grandes e os pequenos no passado, pelo menos naquele período. Em nenhum momento times pequenos passaram a ameaçar os 4 grandes de São Paulo ou Rio – no caso a metáfora do interior não funciona aqui porque o campeonato era restrito a então capital federal.

Uma quinta força até surgia, normalmente Portuguesa aqui e América lá, mas o cenário pouco se alterava. Eram goleadas umas atrás das outras, por conta de um futebol mais espaçado, e os campeonatos eram visto de uma perspectiva de “perda de pontos” dos grandes contra os demais times.

Superclássico das Américas: por conta da ausência de conflitos com as seleções européias, as disputas entre os sulamericanos ganharam ainda mais força. As Copas Roca (clássicos com a Argentina) e Rio Branco (clássicos com o Uruguai) se tornaram os grandes jogos do futebol mundial, em certa medida. Na decisão da Copa Roca de 1945, o Brasil foi campeão após 23 anos e após tomar várias goleadas nas edições anteriores, em 1939 e 40. Tudo parecia bem até o final da partida, quando o Lateral Esquerdo platino Batagliero trombou com Ademir, caindo em campo e fraturando a tíbia. A cobertura da imprensa brasileira na época não deu a menor atenção e aquilo foi encarado como “lance de jogo”.

A Seleção Campeã da Copa Roca de 1945, ainda jogando de uniforme branco.

No ano seguinte, o Sulamericano (atual Copa América) foi disputado em Buenos Aires e Avellaneda. O Brasil vinha confiante apesar do empate com o Paraguai na terceira partida. Talvez aquela foi a primeira seleção brasileira composta de estrelas: Heleno, Jair Rosa, Ademir, Zizinho e ainda Leônidas e Domingos da Guia. Era um turno único de todos contra todos, mas a última partida do campeonato também foi uma final, Brasil e Argentina, separados por um ponto. Quando, ao sair para o gramado, os jogadores brasileiros viram Batagliero numa cadeira de rodas dando uma volta olímpica pelo Monumental de Nunes com a torcida gritando, se deram conta que tinha algo a mais naquela partida.

Foram minutos de pura pancadaria em campo, até um lance em que Jair quebrou a perna do zagueiro Salomón, supostamente sem querer. O lance foi considerado normal, não houve falta, mas a cena despertou uma briga entre os jogadores. Passados alguns instantes, a luta foi ampliada para a torcida, que invadiu o gramado com a anuência da polícia para agredir os brasileiros. O zagueiro Chico, que teria começado a briga, apanhou até desmaiar e chegou carregado ao vestiário. Após 2 horas de paralisação, a partida ainda retornou quando militares invadiram os vestiários e obrigaram os brasileiros a subir para o campo (Chico, desacordado, foi expulso) para coroar a Argentina campeã.

A repercussão foi tão grande que as duas seleções foram se enfrentar apenas dez anos depois, em 1956. A Argentina boicotou a Copa do Mundo no Brasil, e ambas as seleções, alternadamente, não participaram dos sulamericanos de 1947, 49, 53 e 55.


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Publicado por Lucas Palma

Paulistano, desde que me lembro por gente fascinado pelas possibilidades do futuro, em games, filmes e seriados, herança paterna e materna. Para surpresa geral, ao final da juventude descobri fascínio também justamente pelo oposto, me graduando e mestrando em História, pela Universidade Federal de São Paulo. Sou autor de Palavras de Revolução e Guerra: Discursos da Imprensa Paulista em 1932.

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