A Literatura Nazista na América

A Literatura Nazista na América – Roberto Bolaño

Tradução: Rosa Freire D’Aguiar – Editora: Companhia das Letras

Data de Lançamento: 1996 – Minha Edição: 2019 – 237 páginas


A surrada frase de Brecht de que “a cadela do fascismo está sempre no cio” poucas vezes se mostrou tão verdadeira quanto nos últimos anos. Se existe uma grande assombração que ronda o mundo, é a extrema direita. O escritor chileno Roberto Bolaño nunca deixou de perceber isso: uma de suas primeiras obras é esta espécie de prosopografia ficcional de dezenas de autores latino americanos filo-nazistas, simpatizantes do fascismo.

Através de treze capítulos, contendo de um a até quatro personagens, o autor conta rapidamente 30 biografias de autores diferentes, todos fictícios – ainda que inspirados em figuras reais ou mesmo em esteriótipos.

Nascidos em vários países da América; da Argentina aos Estados Unidos, do Chile ao Brasil, de Venezuela à Cuba, eles têm todos uma trajetória única. Alguns relativamente bem sucedidos, outros que sequer emplacaram a carreira de escritor, alguns ricos ou reconhecidos, outros completamente renegados. Para quem não sabe do que se trata a obra, ao ler algumas páginas em avulso, dificilmente notaria que seria algo completamente imaginário.

Sua criatividade e genialidade não param em simplesmente criar trajetórias tão diversas quanto; muitas vezes, dentro de cada biografia, o personagem se inspira em obras, ou tem como debatedores e rivais, de outros autores ficcionais – criados apenas com esse propósito. Da mesma forma, alguns personagens se cruzam com outros de páginas anteriores, ou mesmo são parentes. Configurando o livro como uma verdadeira prosopografia, que é um estudo articulado de várias biografias, buscando evidenciar ou analisar as suas similaridades e diferenças.

Além da identidade pessoal de cada um, também cada autor tem sua identidade literária. Existem poetas e jornalistas, filósofos e escritores de ficção científica. São tantos talentos e estilos diferentes e ímpares criados que inclusive o leitor em algum momento se identificará com algum escritor; um, particularmente, que me imaginei, foi aquele que sua carreira era baseada em uma série de história alternativa. Mas seu grande sucesso e prazer não era nem os personagens ou os enredos, considerados pela crítica derivativos, e sim em criar e descrever como funcionaria a administração ou a geografia daquele Estados Unidos paralelo. Também temos um membro de torcida organizada que denuncia a mercantilização do futebol; ou aquele que busca romances policiais fortes e violentos; ou ainda um que escreve crônicas de viagem.

O detalhe “apenas” é que todos se tratam de filo-nazistas, simpatizantes de vários daqueles ideais. Em vários graus, são mais, ou menos, doentios.

Na América, o grande refúgio de nazistas fugidos foi a Argentina. Entretanto, o “Diabo está nos detalhes”, determinadas estéticas, discursos e críticas bebem direto da fonte fascista e vão sobrevivendo ao tempo de forma imperceptível. Ou as vezes nem tão singela assim, como no famigerado caso do “professor” de Santa Catarina.

As críticas e alegorias que eles levantam em seus romances e obras sempre desembocam nos lugares comuns da extrema direita: anti-semitismo; degeneração cultural; chauvinismo, elitismo de um lado, aliado a uma demagogia popular de outro; uma crítica anticapitalista superficial, contra os sintomas mas não as raízes do sistema econômico. E as formas que eles articulam suas críticas pela direita à sociedade contemporânea também são variadas, há desde o autor que tirou fotos com Hitler e tem ascendência alemã, ao negro haitiano que cria um “nazismo-criolo”.

Através dessa viagem maluca e genial, temos contato com uma profunda reflexão e impactantes denúncias dessas múltiplas e multifacetadas formas que o ideário nazista tomou (e toma) para se perpetuar nas mentes do século XX e XXI, mesmo em nosso continente, onde, na teoria, o fascismo nunca pôs os pés, mas sempre foi admirado (e implantado em graus menores) pela direita latino americana.

Excelente (5/5)

Genial. O cara simplesmente inventou dezenas de autores ficcionais e centenas de obras escritas por eles, de forma a articular essas pessoas e produções criadas numa apresentação impactante e profunda de como os ideais fascistas continuam sobrevivendo à passagem do tempo.

Escritores brasileiros: Há dois personagens nascidos no Brasil na coletânea de Bolaño, um carioca e outro mineiro. O primeiro é um famigerado filósofo, extremamente prolífico, escreve obras e mais obras de centenas ou até milhares de páginas, sobre os mais amplos problemas filosóficos: ética, moral, beleza, vida, alma… criticando em especial Sartre mas também , Hegel, Russeau ou Montesquieu. Com o pequeno detalhe que as críticas são patéticas; ninguém entende nem o que exatamente ele está criticando nas obras, e nem ganha relevância acadêmica. São encaradas como críticas avulsas mais relacionadas a pensamentos dele que dos autores.

Qualquer semelhança com quem quer que você saiba o mínimo para não ser um idiota é mera coincidência. E uma prova do brilhantismo de Roberto Bolaño em captar essas tendências literárias.

Já o segundo, é um membro de esquadrão de extermínios das polícias militares durante a ditadura, e misturava seus romances com seus assassinatos e torturas cometidos enquanto trabalhava como policial.

O Infame Ramirez Hoffman: O último capítulo da obra é muito curioso: inesperadamente, o próprio Bolaño é um personagem e a biografia é escrita em primeira pessoa, com ele narrando o que teria ouvido falar desse autor, é a maior e mais detalhada trajetória. Não a toa. Este é uma espécie de prólogo ou mesmo um “protótipo” da sua obra seguinte, Estrela Distante, onde Hoffman, com outro nome, é o personagem central.


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Publicado por Lucas Palma

Paulistano, desde que me lembro por gente fascinado pelas possibilidades do futuro, em games, filmes e seriados, herança paterna e materna. Para surpresa geral, ao final da juventude descobri fascínio também justamente pelo oposto, me graduando e mestrando em História, pela Universidade Federal de São Paulo. Sou autor de Palavras de Revolução e Guerra: Discursos da Imprensa Paulista em 1932.

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