O Espírito da Ficção Científica

O Espírito da Ficção Científica – Roberto Bolaño

Tradução: Roberto Brandão – Editora Cia das Letras

Ano de Lançamento: 2017 (1984) – Minha Edição: 2017 – 182 páginas


A obra do escritor chileno Roberto Bolaño é extremamente complexa, são várias camadas, textos que se relacionam uns com os outros anos depois, personagens que são testes para outros, heterônimos e alter egos do autor surgem de supetão, linhas narrativas são inacabadas… tudo isso está presente neste livro aqui, um dos mais controversos do autor.

Escrito em sua juventude, entre 1980 e 1984, é considerado um texto “laboratorial” onde ele exercitou certas ideias e conceitos que seriam desenvolvidos de forma mais madura no auge de sua carreira. Não é certo que havia intensão dele em publicar esta obra, que foi editada postumamente, 13 anos depois de sua morte, em 2016.

O texto é composto de três linhas narrativas diferentes que vão se intercalando: na primeira, um autor consagrado recebe um prêmio e concede uma entrevista, na qual ele dá detalhes de sua obra premiada; na segunda, um escritor escreve correspondências tresloucadas para alguns famosos nomes da literatura de Ficção Científica; e na terceira, que acaba constituindo a parte mais organizada e envolvente do livro, dois jovens escritores (um deles é o autor das cartas) dividem uma quitinete na Cidade do México, nos anos 70, e se relacionam com outros artistas.

O único momento em que o texto mergulha um pouco mais no que título aparentemente se propõe são as cartas, que possuem algumas referências a poucos escritores clássicos do gênero. Nas demais camadas, aqui e ali, aparecem alguma coisa, mas muito marginalmente. A entrevista, em especial, é nitidamente a parte mais inacabada; mas o livro todo passa a impressão de texto nunca preparado para uma publicação final, talvez as correspondências, com uma revelação final, seja o que estava mais maduro, mas você termina perdido a maior parte da leitura.

O que, por sua vez, já estava em plena forma, e é o talento do autor. Mesmo passagens aparentemente despropositadas são muito envolventes e muito poéticas – o passeio de motocicleta é uma cena que você consegue imaginar perfeitamente e se emocionar mesmo guardando pouca ou nenhuma relação com o resto do livro. Da mesma forma, o mergulho nos subterrâneos da América Latina, especialmente através da violência de nosso cotidiano, já se mostra presente e dão muita intensidade à leitura.

Como em Literatura Nazista na América, os livros de Bolaño são muito direcionados também a escritores, e isso já era uma característica presente nesta que pode ter sido sua primeira obra de prosa. Alguns vão se identificar com o cotidiano dos autores em início de carreira, com as amizades e as conversas, outros com os ambientes subversivos, outros, por exemplo, o que me parece ser a grande moral da história, era como ele, naquela altura da vida imaginava ser completamente impossível ser um escritor sobre Ficção Científica de sucesso na América Latina, dada a nossa brutal realidade.

Dada a reunião de praticamente todos os traços mais complexos do autor e, em especial, o caráter experimental e inacabado deste livro, não é uma leitura que recomendaria – eu mesmo só consegui escrever esta resenha após uma conversa com meu amigo Hildon, do Parlacast, para ele, leitor assíduo de Bolaño, me colocar a par de algumas coisas – apenas, para estudiosos da literatura. Pelo contrário, alerto aos navegantes que a obra tange muito marginalmente a Ficção Científica.

Mediano (2,5/5)

Intenso, Brutal e poético como todas as obras do autor. Entretanto, é um texto inacabado e experimental, que talvez não houvesse intenção de ser publicado.

Manifesto Mexicano: a última alteração registrada – embora discuta-se que talvez O Espírito da Ficção Científica foi revistado por Bolaño diversas vezes ao longo da sua vida – em 1984 é a introdução de um conto, originalmente disposto no manuscrito de Universidade Desconhecida, outra obra póstuma, lançada em 2007. Uma estória muito bizarra, quase se assemelha a um conto erótico, na qual ele descreve as aventuras sexuais de Remo com Laura, um casal formado durante o corpo principal do livro.


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Publicado por Lucas Palma

Paulistano, desde que me lembro por gente fascinado pelas possibilidades do futuro, em games, filmes e seriados, herança paterna e materna. Para surpresa geral, ao final da juventude descobri fascínio também justamente pelo oposto, me graduando e mestrando em História, pela Universidade Federal de São Paulo. Sou autor de Palavras de Revolução e Guerra: Discursos da Imprensa Paulista em 1932.

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