A Revolução Vietnamita

A Revolução Vietnamita – Paulo Fagundes Visentini

Data de Lançamento: 2008 – Minha Edição: 2018 – 123 páginas


Poucos eventos completamente estrangeiros a nós estão tão gravados na nossa memória como a Guerra do Vietnã. O pequeno, pobre e esquecido país que derrotou a maior potência militar do último século… após um tempo inicial de silêncio, as representações sobre o conflito começaram a pipocar em filmes, séries, quadrinhos e até games mais recentemente.

Quase tudo acaba sendo focado na experiência americana do conflito, e esquecemos do quem então eram os vietnamitas, porque e como eles resistiram a esse massacre e tiveram êxito em expulsar o invasor. Na realidade, como o livro detalha muito bem, o que conhecemos como “Guerra do Vietnã” é apenas um pedaço daquele processo histórico.

O livro nos apresenta as resistências locais tanto quanto à presença da França, que colonizou a região desde a década de 1860 como Indochina Francesa, quanto à japonesa. Durante a Segunda Guerra Mundial, o local passou a ser administrado pelo governo de Vichy, fantoche do Eixo, que gradualmente deixou os japoneses ocuparem o local, e os vietnamitas empreenderam um violento combate contra os invadores. A organização e a experiência adquiridas nesta luta foram fundamentais para quando a França tentou recolonizar a Indochina ao final da guerra.

A derrota da França na Indochina fez com que ela apertasse ainda mais a repressão na Argélia:

A Revolução Argelina

Em uma das independências mais duras da história, uma guerra civil de 7 anos sacudiu Argélia e França, que não quis abrir mão de sua principal colônia após perder quase todo o Império.

Após 8 anos de conflito, a (primeira) Guerra da Indochina terminou com a retirada da França e criação de estados fantoches na região, os reinos do Laos e do Camboja e o Estado Vietnã. Este último é o que ficou conhecido como Vietnã do Sul. A única região com autonomia real foi o norte do Vietnã, controlado pelo Viet Minh, uma liga criada para expulsão dos japoneses, chefiada por Ho Chi Minh.

Tantos os desafios de se estabilizar o Vietnã do Norte, quanto as lutas clandestinas para libertação no Camboja, Laos e Vietnã no Sul são explorados também, no terceiro capítulo. Nessa época que os EUA tomam a frente da França nesta questão, fornecendo muito dinheiro e dezenas de milhares de “conselheiros”. A entrada efetiva dos americanos na guerra foi inevitável, o que também é abordado e é a parte que acaba nos interessando mais.

Mesmo após a derrota dos Estados Unidos, as guerras não terminaram na região; Laos e Camboja estavam mergulhados em guerras civis e até mesmo a China tentou abocanhar um pedaço do território dos vietnamitas. Houve mais conflitos tanto contra a China, para evitar a conquista, como para ajudar libertação do Camboja do sanguinário Kmer Vermelho.

Após a reunificação do país com a expulsão dos americanos, o Vietnã invadiu o Camboja para depor Pol Pot e interromper o regime do Khmer Vermelho – que pretendia instalar um pretenso socialismo voltado a uma espécie de anti-modernidade, tradicionalista, contrário à industrialização e avanços sociais. O vizinho ocupou parte da fronteira com o colapso do Vietnã do Sul, o que serviu de justificativa para a posterior guerra.

E após anos e anos de conflitos, o regime socialista vietnamita, quando parecia que iria se estabilizar, é abalado pelo desmoronamento do bloco soviético e, como a China, opta por um “Socialismo de Mercado” bem controverso ao final da década de 80 – política conhecida como Doi Moi (renovação). E o livro, originalmente escrito em 2007, acaba devendo nesse sentido, sem maiores explicações do como vem sendo essa experiência por lá.

Na contracapa, o autor, veterano da coleção, Paulo Visentini, adianta que o Vietnã é muito mais que a guerra homônima. E embora o autor realmente dedique um espaço considerável a algumas considerações sobre a revolução vietnamita em si, ou seja, suas políticas internas, o livro realmente trata muito mais sobre as relações internacionais do Vietnã – área de especialidade de Vicentini. Todavia, é mais um excelente exemplar da Coleção Revoluções do Século XX da UNESP, resumo didático e focado.

Muito Bom (4/5)

Por mais que o autor deseje fazer mais que uma história da guerra do vietnã e falar sobre desenvolvimento do socialismo por lá, quase todo o livro é dedicado às relações internacionais do país, em guerras e conflitos – em excelentes resumos, todavia.

Familícia Vietnamita: quando Estado do Vietnã (do Sul) é criado, em 1948, inicialmente se dá uma tentativa de pseudo-monarquia (como no Laos e no Camboja) com o antigo Imperador Bao Dai atuando como chefe do Governo Provisório. Bastante omisso, viajando constante para fora do país, ele gradualmente perde força e é substituído por Ngo Dinh Diem em 1955.

Este implanta um regime familiar, onde seus outros 4 irmãos detinham as posições chaves: Ngo Dinh Nhu que comandava a guarda presidencial, forças especiais e a polícia secreta; Ngo Dinh Can tinha também sua unidade paramilitar e comandava o mercado negro e contrabandos e atuava como, de facto, governador da região central do Vietnã (zona de fronteira com o Norte); Ngo Dinh Luyen, oficialmente embaixador no Reino Unido, controlava as relações exteriores; e Ngo Din Thuc era o arcebispo de Hué, comandando a igreja católica na Indochina.

O então presidente Diem assistindo a uma cerimônia acompanhado de dois irmãos.

A família Ngo Dinh sofreu um golpe interno no Vietnã do Sul, assessorado pela CIA, em 1963 e todos os irmãos foram executados, exceto Luyen e Thuc que estavam fora do país.

Sexo, Drogas e Rock’n Roll: para diminuir as bases de apoio camponesas no Vietnã do Sul, houve um processo de êxodo rural forçado no país, com milhões de pessoas sendo deslocadas para as grandes cidades, notoriamente Saigon (a população urbana do país passou de 15% para 60%). Isso desencadeou uma epidemia de prostituição e tráfico de drogas na cidade, pois não havia atividade econômica para todos senão fornecer serviços ilícitos às tropas e conselheiros dos EUA. No auge, em 1971, cerca de 60% dos militares americanos no Vietnã eram viciados em drogas.


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Publicado por Lucas Palma

Paulistano, desde que me lembro por gente fascinado pelas possibilidades do futuro, em games, filmes e seriados, herança paterna e materna. Para surpresa geral, ao final da juventude descobri fascínio também justamente pelo oposto, me graduando e mestrando em História, pela Universidade Federal de São Paulo. Sou autor de Palavras de Revolução e Guerra: Discursos da Imprensa Paulista em 1932.

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