Torto Arado

Torto Arado – Itamar Vieira Júnior

Ano de Lançamento: 2018 – Minha Edição: 2021 – 262 páginas


Mesmo as histórias de vida mais comuns e singelas podem ser palco para grandiosos e envolventes romances. Aqui, em Torto Arado, a sofrida história de duas irmãs em uma grande fazenda perdida no interior da Bahia ganha tons quase épicos na narrativa de Itamar Vieira.

Para além de um incidente ocorrido com ambas em suas infâncias, a trajetória das protagonistas não foge muito da sofrida vida que milhões de brasileiras vivenciaram durante o século XX. As dificuldades de moradia e alimentação, as contradições da distribuição de terras no Brasil, o repressor e brutal cotidiano do trabalho no campo ou as desventuras de um casamento são o fio condutor dessa obra.

Claro que não seria possível fazer um “livro sobre o nada”, não nesses moldes, então o autor coloca elementos para gerar tensão, e, especialmente, fantasia sobre aquela vida tão humilde. A tensão está distribuída ao longo do texto, mas uma que prevalece é o antagonismo entre elas e sua família e os proprietários do latifúndio, que convivem numa verdadeira relação de servidão.

Enquanto isso, a fantasia é incluída no enredo com um misto de sobrenatural e alegorias às religiões de matrizes africanas. Essas intervenções são pontuais, nenhuma da experiências fantásticas têm efeito decisivo na vida dos personagens (apesar de relevantes); e as vezes parecem ser apenas uma espécie de ornamento do autor à obra. A principal interferência desse aspecto fantasioso ocorre já nas últimas 60 páginas, quando o texto muda da narração em primeira pessoa para a terceira pessoa: o autor usa um recurso muito elegante de transformar o narrador em personagem. Mas, ao mesmo tempo, faz desses capítulos finais uma parte do texto que oscila entre um epílogo, um desfecho apressado, uma última oportunidade de incluir coisas que ele gostaria de colocar na história e não sabia exatamente onde, e um final inconclusivo.

Nesse sentido, caminha uma crítica também à principal característica da relação entre as irmãs, resultante do acidente vivido por elas nas primeiras páginas. Por estar exatamente no início da obra, isso é bastante impactante ao leitor (e te faz querer devorar o livro rapidamente), e o autor vende a impressão de que isso será a grande base da obra, a partir do que tudo será construído. O que não é bem assim.

Em parte pelo destino das próprias personagens, mas também pela estruturação da narrativa; essa grande “deficiência” das personagens desaparece poucos capítulos depois. Na realidade, em pouco tempo fica até difícil lembrar qual das duas que tem a maior dificuldade. Apenas quando pontualmente essa característica é lembrada diretamente na narração, você volta a lembrar quem é quem com relação ao acidente – grave erro já que a obra é narrada em primeira pessoa (como você mesmo esqueceria de apontar suas dificuldades?).

Mesmo assim a obra nunca de deixa de ser agradável – apenas em alguns momentos do capítulo final, escorrega um pouco e você pode se sentir tentado a fazer uma leitura dinâmica – e consegue criar uma história muito cativante a partir da vida de duas pessoas muito comuns quase que perdidas no tempo e espaço do Brasil – e por isso mesmo, inclusive, não há marcos temporais nem geográficos na obra).

Muito Bom (4/5)

Uma leitura muito agradável que consegue criar uma história cativante, emocionante e tensa da vida de duas personagens comuns e sofridas da realidade brasileira., com pitadas de sobrenaturalidade e problemas sociais.

Tempo e espaço: o autor não apresenta marcos explícitos de lugares ou datas em nenhum momento – propositalmente, para reforçar a “universalidade” da situação em que os personagens estão presos (o trabalho análogo à servidão no campo). Mas podemos deduzir algumas coisas.

Em primeiro lugar tudo ocorre no século XX, claro, há algumas referências de tantos anos após a Lei Áurea, por exemplo. As meninas são socorridas em sua infância numa Ford Rural, um carro fabricado no Brasil na década de 1960; já adultas, em algum momento surge uma televisão, que se popularizou apenas na década de 1980; e, em especial, um toque muito breve mas genial, os proprietários da fazenda tentam converter os moradores às religiões evangélicas, em um movimento de expansão já notado nos anos 1990 e 2000.


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Publicado por Lucas Palma

Paulistano, desde que me lembro por gente fascinado pelas possibilidades do futuro, em games, filmes e seriados, herança paterna e materna. Para surpresa geral, ao final da juventude descobri fascínio também justamente pelo oposto, me graduando e mestrando em História, pela Universidade Federal de São Paulo. Sou autor de Palavras de Revolução e Guerra: Discursos da Imprensa Paulista em 1932.

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