Guerras Híbridas

Guerras Híbridas: das revoluções coloridas aos golpes – Andrew Korybko

Tradução: Thyago Antunes – Editora Expressão Popular

Ano de Lançamento: 2015 – Minha Edição: 2018 – 171 páginas


Os últimos acontecimentos na Ucrânia só podem ser entendidos se remetermos, ao menos, até 2004, quando houve a chamada Revolução Laranja. Após o resultado das eleições presidenciais terem dado vitória a um candidato da situação, uma série de protestos irromperam no país alegando fraude, apesar de acompanhamento internacional do pleito, marcados pelo uso de adereços e itens laranjas. Depois de muita pressão, a eleição foi anulada e uma nova votação reverteu o resultado dando a vitória ao candidato da oposição – cuja campanha política era adornada pela mesma cor.

Esses eventos foram parte de uma seqüência de protestos ocorridos no entorno da Rússia na primeira década deste século. A Revolução Rosa na Geórgia, em 2003, a Revolução Tulipa no Quirguistão, em 2005, e a Revolução Jeans na Bielorrússia, em 2006, foram algumas outras mais relevantes do período e essa onda ficou conhecida como as Revoluções Coloridas. Ainda sem muito esforço, é possível traçar uma série de semelhanças com dezenas de movimentos, que as conectam à Primavera Árabe, a Junho de 2013, ou a uma segunda onda dessas manifestações – dentre elas, o Euromaidan, na Ucrânia em 2014.

Curiosamente, como muitos dos alvos eram países de influência russa, nos quais governos pró-Rússia foram derrubados por outros pró-ocidente, se tornou uma tarefa de militares, diplomatas e intelectuais de Moscou tentarem entender o que estava acontecendo. O resultado desde esforço foi a teoria da Guerra Híbrida, nos apresentada por aqui pelo americano radicado na Rússia, Andrew Korybko.

Imagem da Revolução Laranja, em 2004. Uma das características mais simplórias das Revoluções Coloridas é a presença de dizeres em inglês (no canto esquerdo “stop vote corruption“), indicando que os manifestantes têm interesses na repercussão internacional positiva dos eventos na mídia ocidental.

Em um texto muito ágil (o corpo principal tem apenas 100 páginas), o autor apresenta justificativas teóricas e práticas para dar sentido às seguidas crises políticas enfrentadas ao entorno da Rússia nos últimos anos. Resgatando os primórdios da Geopolítica como campo de estudo, Heartland e Rimland, ele tenta demonstrar que o objetivo do ocidente sempre foi dominar a região da Rússia – a mais rica em recursos do planeta. A Guerra Híbrida seria apenas o passo mais atual nessa empreitada histórica.

Em termos muito gerais, essa modalidade de conflito é empreendida em duas frentes, em termos meus: uma “moral”, através de protestos, e uma “física”, através de guerras não-convencionais (guerrilhas, ataques de organizações paramilitares) com o objetivo de sempre gerar e direcionar o caos implantado na sociedade alvo. Quanto maior o caos, mais dificuldade o Governo e o Estado tem de controlar ou contornar a crise política.

O caos, aparentemente desordenado, teria sim um sentido e seria direcionado de fora – no caso, do Ocidente contra governos pró-Rússia. Nesse sentido, a teoria de Korybko é extremamente delimitada àquele contexto russo; posteriormente ele foi expandindo seu leque e em escritos ou entrevistas posteriores, e aprimorou suas premissas. Mas especialmente, ele passou a ser lido e serviu de inspiração para autores de outros países aplicarem ou adaptarem sua teoria em outros contextos.

Entretanto, é importante pontuar que nesse primeiro estágio da teoria da Guerra Híbrida ela dificilmente pode ser aplicada para outros cenários. Korybko aponta como essas movimentações começam de fora e têm como alvo as elites e governos nacionais – e o autor coloca ambos do mesmo lado, inclusive a mídia nacional, contra um inimigo externo. Na periferia, no contexto do mundo pós-guerra fria, para não dizer sempre, na maioria das vezes as elites nacionais têm interesses interligados com as elites internacionais dada a globalização dos capitais. Já ao longo de todo o século passado muito do debate do terceiro mundo era o conflito entre a burguesia local ligada ao capital nacional e aquela ligada ao capital internacional.

Esse contexto onde a “elite nacional” protege os “interesses nacionais” – uma relação que careceria de maior exame; isso soa quase como uma lenda urbana para um latino-americano – só seria possível, se for verdadeiro, justamente, nos países do antigo segundo mundo, onde surgiu uma nova burguesia (os chamados Oligarcas) muito conectada à burocracia estatal e militar do período socialista. E muito ligada às suas contrapartes na Rússia, importante lembrar.

Eu sou muito simpático a várias das suspeitas levantadas por Korybko, acredito que há vários conceitos interessantes, e tenho certeza que há uma orquestração por parte bloco da OTAN sobre essas Revoluções Coloridas e definitivamente o Brasil foi um alvo prioritário dessa ofensiva durante o Governo Dilma. Entretanto, o importante nesses casos seria o conteúdo das manifestações e sua organização – essas são pistas importantes para compreender se aquelas manifestações tinham caráter emancipador ou não.

Imagem da Revolução Rosa na Geórgia, em 2003, além de troca de governo, transformou radicalmente os símbolos do país, incluindo a bandeira. Ainda em estágios iniciais, a Guerra Híbrida iniciou-se com a Revolução Colorida e arrastou a Rússia numa crise eu chegou às vias de fato, com a invasão da Geórgia, para assegurar os governos da Ossétia do Sul e da Abecásia, repúblicas autônomas pró-Rússia dentro do pequeno país, em 2008.

Absolutamente não é o caso da teoria da Guerra Híbrida deste autor. Diferentemente do esforço de Piero Leirner em aplicar esse modelo no Brasil, Korybko não explora em momento algum o conteúdo das revoluções coloridas (que seriam preâmbulos da guerra não-convencional); sua preocupação é com o formato que elas adquirem. Ele denuncia seguidas vezes como a Guerra Híbrida busca desestabilizar instituições, impedir a polícia de controlar as manifestações e divulgar bandeiras anti establishment. O que, até aí, na verdade é o formato de qualquer Revolução. Inclusive a combinação de protestos + conflitos não convencionais é tudo menos inédita, se você pegar a coleção Revoluções do Século XX da UNESP, todo número contará com esse formato.

A grande questão está justamente no conteúdo e organização de uma onda de protestos. O que eu imagino necessário para configurar manifestações em uma Revolução “verdadeira” ou em Revoluções Coloridas – que, mais ou menos, eu definiria como revoluções de fachada, sem caráter emancipatório, composta de pautas ocas, e primeiro passo de uma ofensiva Híbrida – seria a presença ou não uma pauta com reinvindicações concretas em direção à democracia popular, direitos sociais, políticos ou econômicos. E mesmo assim isso não é completamente novo: a Marcha da Família com Deus pela Liberdade teria sido uma Revolução Colorida e o Golpe Militar a guerra não-convencional numa ofensiva Híbrida dos EUA em 1964?

Uma outra característica seria referente à organização dessas manifestações; repelindo partidos políticos ou sindicatos – mesmo quando se manifestando em nome de um candidato em específico como no ocaso da Revolução Laranja – é uma face completamente ausente. Novamente sou eu falando, não o autor. A horizontalidade é absoluta. Isso, ainda que lindo, poético e democrático em abstrato, é implodir qualquer manifestação por dentro. Se torna virtualmente impossível para os governos negociarem reinvindicações, não há com quem negociar. No Brasil, em 2013, as esferas governamentais que tentaram chamar os manifestantes para conversar, falaram sozinhas. Em episódio contado por um de seus entusiastas, Rudá Ricci, o cientista político comenta que o governo de Minas Gerais tentou negociar na Secretaria de Educação com manifestantes (não deixou claro a data), mas as reuniões eram em vão, pois cada grupo que comparecia não compartilhava das pautas dos anteriores.

Euromaidan: a onda de protestos em 2014 que derrubou, novamente, um governo pró-Rússia na Ucrânia, em 10 anos. Em análise do autor, ele demonstra que este é o grande exemplo de Guerra Híbrida. As ondas de protestos se tornaram cada vez mais violentas e caminhavam para a guerra não-convencional.

Isso por si só também não faz ninguém de fantoche dos EUA nem configura uma Revolução Colorida. E sim encontrar uma determinada convergência dessas características e análise de um certo padrão dessas coincidências poderia servir de base. Entretanto, a preocupação de Korybko (e provavelmente das autoridades russas) não está em compreender essas manifestações, o que seria um passo importante para evitá-las, está tão somente em reprimi-las ou confrontá-las e, especialmente grave, de uma perspectiva de ameaça russa.

Se muitas das coisas que ele aponta aqui não são novas, o que teria de ineditismo, e costuraria a Teoria, seria seu contexto. Nesse sentido as convergências e padrões se resumem a possibilidade das manifestações afetarem à Rússia. Não a toa, a premissa teórica para embasar o livro é o resgate de discussões de Geopolítica do início do século XX sobre a importância da Eurásia para a dominação mundial.

Novamente, acredito que essas Revoluções Coloridas tem um componente, sem o qual elas não ocorreriam, de coordenação e fomento vindos do bloco da OTAN; entretanto, este livro e sua teoria são frágeis. A preocupação está muito mais depositada no formato das manifestações e eventos que em seu conteúdo ou organização, o que, na realidade, gera um forte viés autoritário. Não importa o que elas dizem ou como elas se organizam, para saber quem está por trás, por exemplo, mas sim o formato “ocidental” e os objetivos anti-russos que são decisivos.

O Brasil no espectro de uma guerra híbrida

O autor desnuda os movimentos subterrâneos – teóricos e concretos – feitos pelo exército, desde a redemocratização mas, em especial desde o governo lula, para reconquistar o poder nacional. Dentre esses movimentos, a deflagração de uma guerra híbrida.

Caso a Guerra Híbrida pareceu uma teoria muito sólida para você, isso se deve, provavelmente, a quem leu a adaptou para outros contextos – inclusive para o brasileiro, através do grande trabalho de Piero Leiner – do que dessa perspectiva original.

Mediano (2,5/5)

A fama e a solidez desta teoria se deve mais a sua repercussão do que a sua origem; neste livro tudo ainda é muito frágil. O foco de caracterizar os eventos de uma guerra híbrida está na análise do formato da manifestações e no grau de ameaça à Rússia. Dando pouco espaço para a compreensão de seus conteúdos e organização, deixa ainda passar um viés muito autoritário.

Anexos: quase metade do livro é composta de apêndices, que são muito interessantes. O primeiro é uma exposição sobre as revoluções coloridas mais detidamente, explorando suas mecânicas, paralelos, repetições e padrões. É uma análise muito melhor que a do corpo principal do texto; aqui ele se aventura mais na questão organizacional dessas ondas de protestos, como elas se estruturam, e até, ainda que muito timidamente, sobre as pautas que se repetem – destaque para as “fraudes eleitorais”.

Por outro lado as vezes fica a impressão de que falta intimidade dos países do leste europeu, que não viveram “ondas de protestos de tipo ocidental”, muito comuns para nós desde a metade do século passado. Ele denuncia o fato de protestantes irem a locais visíveis ou a distribuição de alimentos no local, por exemplo. São práticas rotineiras mesmo na periferia do sistema, como na América Latina; provavelmente os protestos durante o Socialismo Real eram diferentes devido a inexistência de mídia ou propriedade privada, pensando alto.

Já um segundo anexo, temos o autor apresentando algumas possibilidades desestabilizações no “arco colorido“, o entorno da Rússia, com o objetivo de atingir o país. Em um texto escrito em 2015, as análises são certeiras, quase tudo o que ele colocou ali como eventuais frentes de combate de uma Guerra Híbrida, ocorreu ou continua ocorrendo. O exemplo que mais chama a atenção é quando ele apontou a real chance de um golpe de estado da Turquia em breve; tentativa que de fato ocorreu menos de um ano depois. Ele também chama a atenção de aumento nas tensões no Azerbaijão, com o conflito Nagorno Karabahk – que se transformou em uma breve guerra em 2020 – e, ainda, como a OTAN sempre busca arrastar a Rússia para uma guerra na Ucrânia.

Durando cerca de 1 mês, o conflito do Nagorno Karabahk foi a disputa da região entre o islâmico Azerbaijão e o cristão Artsakh, uma república não reconhecida internacionalmente que controla a região – parte do território Azeri. A república, de maioria armena, e é apoiada pela Armênia, vizinha. De acordo com a avaliação do autor, em 2015, a desestabilização das relações entre Armênia e Azerbaijão é parte da Guerra Híbrida, já que a Rússia tem interesses em ambos os países mas seria obrigada a tomar partido.

Há, por outro lado, algumas coisas complicadas e controversas. Como a necessidade de defender o Governo Orban na Hungria, ao mesmo tempo que clama a necessidade de defender a Sérvia de governos ultranacionalistas – isso compromete a teoria de forma mais ampla, já que o objetivo não é compreender um aspecto político da humanidade e um fenômeno histórico e sim compreender a ameaça à Rússia.


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Publicado por Lucas Palma

Paulistano, desde que me lembro por gente fascinado pelas possibilidades do futuro, em games, filmes e seriados, herança paterna e materna. Para surpresa geral, ao final da juventude descobri fascínio também justamente pelo oposto, me graduando e mestrando em História, pela Universidade Federal de São Paulo. Sou autor de Palavras de Revolução e Guerra: Discursos da Imprensa Paulista em 1932.

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