O Brasil no espectro de uma guerra híbrida

O Brasil no espectro no espectro de uma guerra híbrida: militares, operações psicológicas e política em uma perspectiva etnográfica – Piero C. Leirner

Ano de Lançamento: 2020 – Minha Edição: 2020 – 329 páginas


O Gigante acordou, abram os óleos, vai pra Cuba, Foro de São Paulo, Marxismo Cultural, PT quer implantar uma ditadura bolivariana, Petrolão, Triplex no Guarujá, Lava Jato, Mamadeira de Piroca… todos esses “movimentos políticos” foram minando gradativamente a sociedade brasileira de 2013 para cá. Implodiram partidos políticos, movimentos sociais ou instituições como as universidades, por exemplo; mas no geral, implodiram toda a comunidade nacional, em um sentido mais amplo.

Enquanto passávamos por esse turbilhão eu tinha a ideia de que os mais favorecidos por isso seriam os políticos da bancada evangélica; eles conseguiriam capitalizar mais que ninguém despolitização. No entanto, apesar de fortes como nunca, quem emergiu no poder, em meio ao kitgay e à madeira de piroca, foi ninguém menos que a espada de Dâmocles da política nacional de sempre; o exército.

Esse movimento, normalmente caracterizado com o bombardeio de fakenews com o objetivo de colapsar o país, é mundial e ficou conhecido como Guerra Híbrida. Os russos e americanos acusam um ao outro de praticar essa nova modalidade de conflito; e com certeza ambos o fizeram tanto um contra o outro quanto em regiões de influência adversária. Todavia, aparentemente o movimento foi iniciado através das Revoluções Coloridas em antigas repúblicas soviéticas na década de 2000. Os EUA inflaram manifestações que levaram à derrubada de governos pró-Russia.

Nestes casos, um poder externo, internacional, minou as instituições nacionais. No caso brasileiro, a grande especificidade seria que a Guerra Híbrida foi deflagrada a partir de dentro, de um poder interno querendo derrubar as instituições, e este poder interno seriam as Forças Armadas – este é o cerne da tese de Piero Leirner apresentada neste livro.

Partindo de estudos e contatos prévios feitos por ele dentro do exército, nos anos 90 e 2000, Leirner identifica como os militares foram incorporando certas táticas americanas referentes às guerras não-convencionais por todo o último período. E, a partir do Governo Dilma, passaram a agir deliberadamente com o objetivo de tomada de poder, concretizado parcialmente com Bolsonaro.

O ciclo OODA, Observação, Orientação, Decisão e Ação é um dos pilares da teoria militar contemporânea, dele dependeriam as ações certas de um exército em conflito. Guerra Híbrida age para atrapalhar esse ciclo de um inimigo.

A estrutura do livro começa com uma longa explicação das teorias militares mais influentes sobre a guerra moderna, especialmente as de John Boyd e seu ciclo OODA; na imagem acima. E, em seguida, uma outra mais que longüíssima discussão sobre as teorias do Estado e da Violência, citando desde pensadores gregos a filósofos do século XX. Com algumas características da Ciência Política que eu simplesmente odeio, como colocar em um mesmo parágrafo referências, por exemplo, a Tácito (século I), Hobbes (XVII), e Carlo Guinzburg (XX e XXI) para entender algo de uma perspectiva “Foucaultiana” (XX) um determinado ponto, numa grande salada mista de gente falando sobre épocas diferentes. Um pesadelo para qualquer historiador.

A conclusão é importante: Leirner quer demonstrar que o Estado não é a “anti-barbarie” como somos levados a pensar pelo senso comum. Ele, o Estado, prevê algum tipo de conflito, o que permitiria, no caso brasileiro, que uma ofensiva de Guerra Híbrida seja deflagrada de dentro dele: pelas Forças Armadas.

Finalmente, da metade para o final, o foco volta-se especificamente para o caso brasileiro. O autor demonstra a posição do exército em alguns momentos cruciais da história recente do país, e como, a partir de 2013 (embora ele não entenda exatamente as manifestações de Junho como uma ofensiva de Guerra Híbrida), gradualmente o confronto público entre militares e a Presidenta Dilma entra em uma escalada cada vez maior. Neste front, figuras, infelizmente, importantes da História nacional se mostram cada vez mais presentes: Olavo de Carvalho é convidado a fazer palestras para oficiais (desde os anos 90 conforme ele aponta), Bolsonaro é convidado para fazer discursos de cerimônias de formatura, e os juízes do TRF-4 (responsáveis pelo julgamento de Lula) fazem cursos oferecidos pelo exército em quarteis.

As vezes você se sente assim lendo o livro com as conexões levantadas entre militares e eventos e personagens políticos recentes, pois tudo é muito conjectural.

Chegando às movimentações específicas pós golpe para as eleições de 2018; somos apresentados a alguns eventos ainda mais contemporâneos. Tais como a Intervenção Militar no Rio de Janeiro, ainda no Governo Temer, e as articulações de dois generais que paulatinamente se tornaram figuras centrais na política nacional; o General Heleno e o General Villas-Boas, fazendo uma tabelinha do bad cop e good cop (tira mau e tira bom), nas próprias palavras do autor, da relação entre exército e política.

Referências como esta última, de cultura de massa, sobre filmes blockbusters ou expressões populares, aliás, são constantes no texto. Leirner tem boas tiradas e arremata algumas conclusões com maestria popular; o que, contrasta demais com todo o teor do texto, que é extremamente aprofundado. O contraste se apresenta claramente com o uso extensivo de um vocabulário muito complexocismogênese, bomba semiótica, etnografia, holismo, círculo cognitivo, para citar alguns exemplos de conceitos empregados várias vezes.

Mas, em especial, o problema está nas inúmeras referências bibliográficas.

E bizarro reclamar disso, eu sei. Não me entendam mal, esta é uma resenha que, como o livro, busca combater o bolsonarismo. Entretanto, como no exemplo citado acima, em boa parte do livro (a primeira metade especialmente) temos um debate intenso e denso de Foucault pra lá, Clausewitz pra cá, Hobbes aqui e Clastes acolá. Por sua vez, que se misturam com fontes militares (autores militares do século XX e XXI falando sobre a Guerra Híbrida e teorias de guerra); e também com pesquisadores acadêmicos que ele consultou sobre o tema.

Para além das diferenças de metodologia entre História as Ciências Sociais, eu entendo perfeitamente o que ele está fazendo. Todo texto acadêmico pede essa mistura maluca para embasar de onde você está partindo para suas reflexões, eu também sempre fiz isso; entretanto, ela interessa muito pouco para além da banca que está te avaliando. No caso, a inspiração para o livro foi um texto para banca de concurso, onde, realmente, esses balanços bibliográficos são partes integrais.

Entretanto, por conta das expressões e analogias populares, tiradas e ironias, e até mesmo a natureza de algumas da fontes (correspondências pessoais, conversas no zap com outros pesquisadores), fica desconexo o rigor – quase que militar, eu diria, para ironizar – acadêmico em alguns capítulos e outros não. Mas, em especial, o grande problema é que o que Leirner tem a dizer aqui é MUITO RELEVANTE, deve ser de domínio e debate público. Entretanto a forma como o livro se desenvolve – inclusive esteticamente, as citações de fontes não têm recuo nem parágrafos – é muito desencorajante para qualquer um que não seja exatamente da mesma área que ele.

O ideal – se um dia essa resenha chegasse ao autor – seria ele sentar com algum outro pesquisador mais acostumado a escrever coisas destinadas ao público geral, e bolar uma versão traduzida e reduzida de O Brasil no Espectro de uma Guerra Híbrida.

Muito Bom(4,5/5)

O autor desnuda os movimentos subterrâneos – teóricos e concretos – feitos pelo exército, desde a redemocratização mas, em especial desde o governo lula, para reconquistar o poder nacional. Dentre esses movimentos, a deflagração de uma guerra híbrida. Entretanto, o texto é muito contrastante entre trechos de debates públicos, mais conjecutrais, e debates acadêmicos , mais teóricos..

Intervenção no Haiti: um ponto em comum encontrado em quase todos os militares que passaram a protagonizar a política nacional na última década é que todos estavam envolvidos no comando da MINUSTAH (Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti), que se desenrolou sobre a liderança nacional entre 2004 e 2017. Na época, uma tentativa do Governo Lula de aumentar a força brasileira nos órgãos da ONU, em especial, do Conselho de Segurança.

Nomes como Augusto Heleno, Santos Cruz, ou outros menos de mídia como Floriano Peixoto, que preside os Correios, Ajax Pinheiro, assessor do STF, Luiz Eduardo Ramos, secretário de governo de Bolsonaro; todos comandantes da Minustah. Durante a intervenção no Caribe, os próprios enalteceram a experiência “de governo”, ao lidar com as demais nações envolvidas, ONGs, empresas, a população hatiana e etc.

Leituras do exército: Por boa parte da carreira, Leirner pesquisou justamente o cotidiano das academias de formação do exército. Uma coisa que chamou a atenção é como as escolas são em um formato estritamente hierárquico, e não em relação à disciplina ou à pedagogia. O próprio conteúdo é hierarquizado.

Desde clássicos da filosofia, história ou política às notícias diárias, tudo foi lido por alguém que repassa em boletins internos (como os noticiários) ou cria materiais como transparências/slides ou, quando muito, resenhas, muitas vezes sem autoria atribuída. Embora não seja vetado procurar outras fontes, todo o método, aulas e avaliações, além da disciplina militar de forma genérica, fazem com que esse tipo de “leitura” terceirizada deseja aceita como verdade absoluta.

Amazônia para os brasileiros: conforme diagnosticado pelo autor; após a queda do Regime Militar e fim da Guerra Fria, as Forças Armadas nacionais precisaram inventar uma nova ameaça à segurança nacional. A escolhida foi uma ambição internacional à exploração da Floresta Amazônica. Que, aliás, é muito real; entretanto, tal como hoje em dia há inúmeras versões que apontam que o mundo é dominado por banqueiros “de esquerda”, a ameaça à Amazônia teve seu toque especial.

Na versão do exército, a principal ameaça à floresta tropical são os indígenas, que seriam marionetes de forças internacionais. A demarcação de reservas e proteção ambiental tratar-se-iam de formas de fracionar o território nacional e diminuir o poder de ação dos militares na região; tudo está explicado no clássico A Farsa Ianomami, escrito pelo Coronel Menna Barreto, de 1995.


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Publicado por Lucas Palma

Paulistano, desde que me lembro por gente fascinado pelas possibilidades do futuro, em games, filmes e seriados, herança paterna e materna. Para surpresa geral, ao final da juventude descobri fascínio também justamente pelo oposto, me graduando e mestrando em História, pela Universidade Federal de São Paulo. Sou autor de Palavras de Revolução e Guerra: Discursos da Imprensa Paulista em 1932.

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