As Contradições do Lulismo

As Contradições do Lulismo: a que ponto chegamos? – André Singer e Isabel Loureiro (org.)

Ano de Lançamento: 2016 – Minha Edição: 2016 – 282 páginas


Olhando de trás para frente, o cavalo de pau dado pelo Brasil a partir de 2016 não é tão difícil de enxergar, entretanto, no olho do furação, o golpe contra a presidente Dilma não deixou de ser surpreendente. Não que não faltassem contradições em nosso regime político, mas genuinamente não se esperava que o país voltasse a ver mais um golpe de estado após uma experiência relativamente positiva e tranquila de democracia burguesa.

Assim como todos os processos análogos de nossa história, o golpe de 16 será discutido e compreendido por mais várias décadas. Mas um dos primeiros esforços de ajudar no entendimento desse evento foi este aqui, não por acaso liderado por André Singer, o pai do conceito de Lulismo, que quis tentar explicar seu colapso.

Entretanto, para além da introdução de um primeiro artigo escrito pelo próprio Singer, os demais 7 textos não conversam tão bem assim com esse conceito. Ainda que vários deles contenham Lulismo no título e tentem encaixar as reflexões sobre ele em vários pontos, é fácil perceber que isso é um elemento feito posteriormente.

Precisando ser um esforço rápido, feito em menos de 6 meses, entre o afastamento de Dilma e a conclusão do processo pelo senado, o que temos é a compilação de textos já escritos anteriormente para outros propósitos que foram adaptados para fazer sentido neste obra e dialogar com o Impeachment. Uns são mais felizes nesse sentido, outros bem menos. Em vários momentos você está lendo e começa a se perguntar, “por que estamos falando disso?”

A (falta) de base política para o ensaio desenvolvimentistaAndré Singer
Terra em Transe: o fim do Lulismo e o retorno da luta de classesRuy Braga
Inovações do Sindicalismo brasileiro em tempos de globalização e o trabalho sob tensãoLeonardo Mello e Silva
Agronegócio, resistência e pragmatismo: as transformações do MSTIsabel Loureiro
Percepções sobre pobreza e Bolsa FamíliaCarlos Alberto Bello
Faces do Lulismo: políticas de cultura e cotidiano na periferia de São PauloCibele Rizek
Luta de Classes na socialização capitalista: Estado privatizado e construção privada da esfera públicaWolfgang Leo Maar
A crítica cultural lê o BrasilMaria Elisa Cevasco
Os artigos que compõem a obra

Todos os artigos possuem contribuições valiosas para compreender as diferentes faces – “boas” e “más” – da prosperidade dos governos do PT. E é por aí que o livro caminha, buscando analisar a era Lula e Dilma e observando contradições, algumas claras e outras mais subterrâneas, que, talvez, poderiam explicar a crise política que levou ao golpe de Estado. O artigo do organizador que abre a obra é realmente dedicado a compreender o final do Governo Dilma ao demonstrar as desventuras da política econômica da presidenta, que naufragara rapidamente após buscar um ensaio de incentivo á industrialização; assim como o seguinte de Ruy Braga também caminha nesse sentido – ainda que eu discorde das avalições dele sobre Junho de 2013 – mas para o final alguns debates começam a cair de paraquedas no texto, olhando o livro como um todo.

Não que eles sejam desinteressantes, muito pelo contrário, todos contribuem, mas foram amontoados ali para caber dentro daquele artigo. Você sabe que tem a ver, mas não entende exatamente por que naquela hora aquilo é citado – há um caso em que começamos, por exemplo, a ler sobre como as famílias percebem as pessoas em seu seio que cometem crimes e ilegalidades. Com certeza é uma polêmica integrante ao tema da luta de classes, mas parece que foi encaixado ali como uma última roupa a ser colocada na bagagem porque você acha que pode usar. Esta é uma característica frequente dos artigos; o último, que foi um dos que mais gostei, faz uma recapitulação de obras de Antônio Cândido e Roberto Schwarz, e acaba até trazendo debates sobre o Tropicalismo.

Por outro lado, outros são extremamente específicos, claramente são desdobramentos de pesquisas acadêmicas com recortes do período; como o que discute o sindicalismo durante a Era Lula. Depois de abrir com um debate introdutório, passa a descrever de forma detalhada e minuciosa como funciona determinadas redes sindicais internacionais, que guardam nenhuma relação com a crise política de 2016. Já o capítulo que trabalha com o Bolsa Família nos entrega, em conjunto com um balanço bibliográfico, centenas de dados e números, entrevistas e levantamentos, sobre o programa. Sem trazer um gráfico ou uma tabela, se torna bastante confuso digerir os dados, e apesar de oferecer boas conclusões sobre a percepção popular do programa – identificando por parte da população uma incompreensão sobre a noção dos direitos sociais – não sabemos exatamente para onde quer apontar no que se refere ao impeachment.

Temos, realmente, um raio x de sensíveis contradições do governo Lula -como o estudo sobre a trajetória de acomodação do MST durante a década de 2000 e o pouco esforço do PT em realizar a Reforma Agrária – mas também desordenado. No capítulo sobre a periferia de São Paulo, começamos com uma interessante denúncia em tom jornalístico, sobre a “privatização cruzada” feita nos bairros paulistanos por várias empresas que passam a gestar os serviços públicos municipais, e terminamos discutindo filosoficamente a formação de sujeitos neoliberais e a atuação de artistas freelancers.

Com certeza são pontos de onde surgiram motivos que poderiam levar a queda de um regime, mas são conjunturas sobre seu possível impacto na crise política. Isto é, ironicamente, reflete bem como estamos até hoje: tentando entender o que houve. Em vários artigos e formulações, não fica muito claro o que seriam características sociais ou econômicas do governo petista, e o que são sintomas das crises do capitalismo neoliberal que sofremos como humanidade. Nesse sentido, apesar de serem contradições que certamente desestabilizam o regime democrático de direito faltaram algumas contribuições, na maioria dos artigos, que caminhem de explicar, então, porque essas contradições do sistema capitalista estouraram, em forma de golpe de Estado, justamente no governo de Dilma Rousseff e não poderiam esperar mais.

Por fim, o que temos é uma obra extremamente acadêmica, nos bons e maus sentidos. Bons pois são textos bastante rigorosos, densos e com sobra de credibilidade, e maus pois são prolixos, recheados de dados, citações e referências – e não se enganem pelo número de páginas, a fonte e o espaçamento são mínimos. A abertura escrita por Singer, jornalista, é um texto mais fácil de ler, mas posteriormente o grau de aprofundamento fica cada vez maior – o capítulo de Wolfgang Maar é realmente inacessível; com uma avalanche de debates e citações, ele parte de conceitos sociológicos complexos demais que não estão bem introduzidos, em especial o da Socialização Capitalista. Definitivamente uma obra escrita para pares, para outros acadêmicos da área das Ciências Sociais, e não para pessoas “comuns” ou mesmo acadêmicos de disciplinas afim que desejam compreender o golpe de 2016.

Bom (3/5)

Denso, rigoroso e variado é um amplo estudo de contradições que poderiam explicar o processo que levou ao golpe de estado 2016. Entretanto, há uma constante impressão de serem artigos e reflexões ótimas, mas amontoadas sem exatamente saber para onde apontar e como conversar com os eventos contemporâneos. Ironicamente reflete a nossa postura durante o golpe -confusa – e, ao mesmo tempo, se torna uma obra até mesmo “datada”.

Junho de 2013: no artigo de Ruy Braga, o sociólogo aponta que o mês marcado por manifestações teria sido o reinício da luta de classes no Brasil após uma “suspensão” do conflito aberto durante a Era PT. Ele demonstra como as contradições se fizeram aflorar e resultando numa multiplicação de greves, manifestações e ocupações. Em especial, a ligação é feita com os embates gerados pelas obras da Copa do Mundo e das Olímpiadas, que agravaram os já complicados problemas urbanos no Brasil.

Ao mesmo tempo, André Singer indica que, no primeiro semestre daquele ano, o Governo Dilma fica encurralado e passa a ceder para os rentistas, atrás de elevação dos juros, abandonando o que ele chamou de ensaio desenvolvimentista. Desta forma, há uma convergência de apontar como 2013 foi um ano de esgotamento do Lulismo.

Provavelmente o debate sobre as manifestações será interminável e sempre um ponto importante para compreender o golpe de 2016. Particularmente acredito que, de fato, o germe das manifestações, ainda sob liderança do MPL e quando houve massiva adesão de sindicatos e movimentos sociais, após repressão da PM, em São Paulo, era um genuíno momento de intensa luta de classes. A luta de classes continuou nas semanas seguintes, mas completamente invertida, creio eu.

No que Piero Leiner vai chamar de “Tempestade Perfeita”, as forças direitistas no Brasil aproveitaram para iniciar sua Guerra Híbrida a partir daquele ponto e as manifestações giraram 180º – e se transformaram nos temíveis “atos cívicos”. Desnorteado, nem PT nem seus movimentos sociais aliados souberam lidar com o diminuto caráter esquerdista das manifestações e, menos ainda, com a avalanche reacionária. A popularidade do governo Dilma, que tinha 79% de aprovação pessoal e 63% de governo bom ou ótimo, ao começar o ano, caiu para 36% pessoal e 8% de governo em 2015. Nesse sentido sim, marcou um momento de ruptura e luta de classes; no caso, da burguesia contra a classe operária.

Sujeitos Neoliberais – Um outro ponto de concordância entre os artigos é como o período dos Governos Lula e Dilma foi terreno fértil para a formação desta categoria – algo que fatalmente sairia pela culatra de qualquer governo progressista. Seja pelo avanço do pós-fordismo como aponta Leonardo Mello, que individualiza e aliena ainda mais os trabalhadores no mundo da produção – o que para ele poderia significar que estamos de fato no auge do fordismo, com toda a sociedade em uma gigantesca linha de montagem.

Seja pela postura do MST, conforme aponta Isabel Loureiro, que diminuiu drasticamente o número de ocupações e tornou-se mais próximo de um sindicato dos assentados. Também, sem anseios de grandes produções coletivas, fortaleceu os pequenos produtores. Ou ainda dos beneficiários do Bolsa Família que não entendem os direitos sociais como direitos coletivos e sim individuais, como aponta Carlos Bello.


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Publicado por Lucas Palma

Paulistano, desde que me lembro por gente fascinado pelas possibilidades do futuro, em games, filmes e seriados, herança paterna e materna. Para surpresa geral, ao final da juventude descobri fascínio também justamente pelo oposto, me graduando e mestrando em História, pela Universidade Federal de São Paulo. Sou autor de Palavras de Revolução e Guerra: Discursos da Imprensa Paulista em 1932.

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