Tudo o que você precisou desaprender para virar um idiota


Tudo o que você desaprendeu para virar um idiota – Meteoro Brasil

Data de Lançamento: 2019 – Minha Edição: 2019 – 288 páginas


Você sabia que Barack Obama é um cripto-muçulmano agente da KGB infiltrado nos Estados Unidos orquestrando a transformação do cristianismo numa religião biônica mundial? Sim, há pessoas aqui nesta rede de computadores que acredita piamente nessa formulação – fruto da cabeça do grande guru contemporâneo, Olavo de Carvalho.

Há alguns anos atrás, quando já era muito famoso por suas teorias psicodélicas, ele lançou um pretensioso livro chamado “O Mínimo que você precisa para não ser um idiota” em que supostamente ele desvendaria para o leitor uma pequena fração das engrenagens secretas que movem o mundo. O tempo passou e por várias razões as quais não cabem nessa resenha, esta “filosofia” se tornou a oficial do Estado Brasileiro.

Agora, mais do que nunca, se tornou urgente tentar desfazer esse verdadeiro universo mitológico olavista, e o pessoal do Meteoro Brasil, antigo canal de curtas-documentais do YouTube, se colocou na linha de frente com este livro diretamente em resposta à “”obra”” do filósofo. E aqui temos já um pequeno problema, como é um livro em resposta, ele fica muito dependente da sua relação e conhecimentos prévios do submundo do Olavoverso.

Aqui os autores tem uma opção, justificável, de se referir apenas indiretamente ao faraó de pinheiros para evitar ratificar seu reconhecimento como pretenso intelectual. Entretanto, isso dificulta demais a leitura porque frequentemente você se vê como se estivesse pegando uma conversa no meio. Eu particularmente não entendi o que foram fakenews diretamente retiradas da obra olavista e o que são teorias conspiracionistas de domínio público, ou se tudo é obra do guru.

Muitos dos capítulos – que são bem diversificados, desmitificando bobagens sobre história e pedagogia a astronomia e biologia – têm correlações bem refinadas, mas como você não sabe exatamente ao que eles estão se referindo em primeiro lugar, não entende porque aquilo foi selecionado ou relacionado, por melhor que seja.

A única ressalva com relação ao conteúdo é que eles se baseiam, em um capítulo introdutório sobre conspirações, fakenews, obscurantismo e afins, muito em autores americanos mainstream. Gente que não é de confiança. Por exemplo, eles citam a exaustão o pavoroso Como as Democracias Morrem, cuja horrível qualidade você pode conferir na nossa resenha.

Como as democracias morrem

Contrabandeado como uma grande análise, é uma baboseira do início ao fim: as respostas que eles apresentam deveriam ser a partida da análise, para ir mais a fundo ou desconstruí-las. Ao contrário, o livro apenas endossa as explicações mais superficiais possíveis para a crise política mundial.

De toda forma é uma coletânea bem interessante de pequenos artigos sobre assuntos diversos, e pode servir para fornecer argumentos caso você se depare com alguém tentando te convencer a embarcar na mitologia olavista, ou debatendo contigo numa discussão aleatória. Porque apesar do sagaz título, o livro, pelo conteúdo, não é direcionado a esse público, e sim a quem tem contato com ele.

Bom (3,5/5)

Apesar de de beber muito de fontes americanas, é Uma grande coletânea com boa pesquisa sobre diversos mitos e fakenews atuais. entretanto, pelo formato e opções editorIais, de não citar diretamente a obra a qual ela está respondendo, parece que você sempre está pegando uma conversa no meio.

Sabedoria Perene: não há um capítulo específico sobre ela, mas o perenialismo aparece em várias das coisas que você precisou desaprender para ser convencido das idiotices. Pelo que os autores apontam, ela é uma espécie de raiz da pós-verdade e do pós-modernismo “vulgar”. Desconfiando da metodologia científica no geral, ela prega que as respostas para os mistérios da humanidade estão nas entrelinhas das mais diversas religiões.

Não há perspectiva de real entendimento do mundo através da pesquisa científica ou da busca de respostas humanas para as nossas dúvidas. As diversas soluções já estão dadas nas religiões e nos valores tradicionais; podem ser passadas pela intepretação das escrituras ou contatos mediúnicos. Configurando assim uma suposta luta entre a modernidade e o tradicionalismo; com os perenialistas do lado deste último.


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Publicado por Lucas Palma

Paulistano, desde que me lembro por gente fascinado pelas possibilidades do futuro, em games, filmes e seriados, herança paterna e materna. Para surpresa geral, ao final da juventude descobri fascínio também justamente pelo oposto, me graduando e mestrando em História, pela Universidade Federal de São Paulo. Sou autor de Palavras de Revolução e Guerra: Discursos da Imprensa Paulista em 1932.

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