Star Trek: Lower Decks (1ª Temporada)

Pela primeira vez em sua história Jornada nas Estrelas decidiu fazer uma série totalmente dedicada à comédia; e essa empreitada tomou forma em uma série animada, a primeira desde os anos 70. A premissa é muito promissora, explorada esporadicamente em algumas dos seriados: os decks inferiores, a rotina dos oficiais de baixa patente dentro das naves.

Contratando profissionais envolvidos em Rick & Morty, Lower Decks se apresenta como uma animação para adultos. E de fato assim o é. Apesar de sempre haver espaço para coisas simples, não são raras as piadas inteligentes e muito refinadas dentro do lore de Star Trek. Por outro lado, faltando ousadia em alguns momentos e até mesmo profundidade nas tramas (sei que estamos falando de animação, mas também estamos falando de Jornada nas Estrelas), o balanço desta primeira edição é positivo mas não sem importantes ressalvas.

Agradou: Referências muito profundas, ironias inteligentes.

Se o objetivo da série é o humor – e é – nisso foi um sucesso. Poucos são os momentos de gargalhadas, mas boa parte dos episódios e suas tramas são baseadas em ironias muito pertinentes. Que geravam furos ou mesmo controvérsias deixadas pelas outras séries; como o “segundo contato”, mote do primeiro episódio, ou ainda em, outro capítulo, uma piada sobre como os protagonistas temem serem demitidos da Frota e irem parar na “terrível” vida na Terra, regrada a vinho e restaurantes típicos.

Além dessas ironias bastante rápidas de se notar; há uma chuva de referências. Há desde menções a personagens de capítulos de outras séries ou espécies inteiras que aparecem uma única vez. Como TAS, aproveitando-se da natureza animada, há muitos oficiais de raças exóticas, como a médica felina, referência também a M’Ress da Série Animada.

Quem se lembrava dessa “espécie”?

Mas ainda há piadas dignas de muita pesquisa dentro do lore de Jornada nas Estrelas, como referências a Xon, um personagem de Star Trek Phase II e cortado para o roteiro de final de TMP. Na realidade, há um capítulo inteiramente dedicado a piadas com os longas da série original.

Não Agradou: Tempo do episódio, muita dependência de referências internas com pouco conteúdo original; fazendo com que pouca coisa realmente seria cotidiano de decks inferiores.

Nascida para ser exibida em streaming, Lower Decks ainda segue a regra de 21 a 25 minutos de duração para programas de meia hora. Isto porque o seriado também foi vendido a emissoras estrangeiras para distribuição na TV. É o seriado de menor tempo de tela de Jornada nas Estrelas, e isso tem grandes efeitos para quem se acostumou a digerir obras de 45 minutos.

A impressão é que todo capítulo é uma grande correria, vai pulando rapidamente de uma piada para a outra; as vezes temos até dificuldade de compreender o que houve e já estamos em outro assunto. Os dubladores também estão nesse ritmo e o único personagem relativamente calmo é o de Rutherford, todos os demais se comportam de maneira frenética; gritando e falando rápido o tempo todo.

Isso complica ainda mais pela quantidade de referências que temos no seriado, que se é um ponto positivo, também acaba soando muitas vezes como desperdícios quando várias acabam ocorrendo uma atrás da outra; especialmente em capítulos que praticamente não há conteúdo original – imagino que se torna inassistível para quem não é trekker. E mesmo para quem é também as vezes se torna monótono; pois fica a referência pela referência, uma puxando a outra, e bem lá no fundo alguma trama natural do episódio.

São poucas as histórias que são genuinamente originais. Há algum meio termo em ironias de referências, como o próprio piloto, mas senti falta de coisas mais genuína, tal como a Seção 14, uma das melhores criações do show. Isso se torna mais grave quando as referências obrigatoriamente são de missões de upper decks, pois é o contexto das demais séries. Há uma aventura em que literalmente um dos personagens se torna imediata da nave. Não é muito lower.

Nesse sentido, a série fica um pouco perdida entre como ater-se as rotinas dos decks inferiores e explicar as grande missões que a Cerritos passa, que invariavelmente são enredos dos oficiais sêniores.


Episódios

S01E01 – Second Contact: O piloto da série que desde o seu título já começa com uma premissa única para Jornada nas Estrelas e que dará o tom de todo o seriado: a ironia. O primeiro contato é sempre um momento marcante, celebrado, tema de vários capítulos… mas e o segundo contato?

No final se trata de algo extremamente burocrático e pouco emocionante, começando com o pé direito para um show baseado em ironias. Aproveitando-se do caráter de animação para fazer humor com exagero ao longo da missão, foi uma excelente abertura para a temática da série desde seus primeiros momentos.

Avaliação: 5 de 5.

Excelente (5/5)


S01E02 – Envoys: Uma característica que ficou no capítulo anterior era de que os Estado-Maior das naves (os oficiais sêniores) seriam pessoas esnobes, chatas… o que contraria absolutamente tudo que já foi produzido em Jornada nas Estrelas. Neste aqui, através de um enredo de um tripulante tentando mudar de área, ele entra em contato com vários desses oficiais e somos apresentado a pessoas bem legais, na verdade.

Essa foi a trama B do episódio, e engraçada, especialmente as seqüências de treinamento no holodeck. Já a trama principal, achei um pouco mais fraca; a dinâmica de dois personagens extremamente opostos um ao outro é já em bem clichê baseado em outros clichês da série, o Klingon violento e beberrão. A ironia característica da série seria muito mais interessante se o Klingon fosse culto e introvertido e se interesse pelo Boimler despertando a ira da Mariner.

Avaliação: 2.5 de 5.

Mediano (2,5/5)


S01E03 – Temporal Edict: Mais um episódio apostando quase que totalmente na ironia. O miolo do episódio, referente as “dificuldades” que a tripulação enfrenta quando eles decidem eliminar o “buffer time” (os nós, pausas ou intervalos, dependendo da gíria onde você trabalha) não é lá tão interessante e mesmo para uma animação a reação de não reagir ao acontecimento principal não faz muito sentido. Da mesma forma, mais lógica mas nem tão interessante é a aventura da equipe de campo.

Entretanto, a piada inicial, sobre o concerto musical, e a final, sobre o legado de um personagem, compensam todo o episódio. Estão entre as melhores do seriado.

Avaliação: 2.5 de 5.

Mediano (2,5/5)


S01E04 – Moist Vessel: Dedicado mais aos arcos dos protagonistas, o capítulo acompanha na trama principal, a relação entre Mariner e sua mãe, e na trama secundária, Tendi atrás do oficial que queria ascender. Ambas com altos e baixos no humor, mas um bom equilíbrio. O grande mérito foi mostrar o Lado B do funcionamento das naves, primeiro com a protagonista fazendo as atividades que ninguém quer – destaque para a limpeza do holodeck – e depois, uma vez promovida, o tédio das rotinas administrativas dos oficiais superiores.

No arco de Tendi, o grande humor vem com o final, uma piada muito afiada sobre a ascensão. O destaque é como este capítulo conseguiu usar bem o fato de ser uma animação criando cenários e aventuras muito interessantes dentro da nave que seria impossível em séries live action. Por outro lado, se firma um recurso já famigerado em Star Trek, mas inerente a animações, que é a falta de continuidade e o botão de reset no final.

Avaliação: 3 de 5.

Bom (3/5)


S01E05 – Cupid’s Errant Arrow: O pior de tudo é que a missão que a Cerritos recebe neste capítulo é extremamente interessante, sobre a demolição da lua e seus impactos sócio-econômicos, é legal e uma pena essa não ter sido uma premissa de um episódio de alguma das “séries sérias”.

As tramas humorísticas têm seus pontos altos e baixos, um pouco irregular mas no geral mantém um bom nível. O final é inteligente ao manter um parasita mas com um desfecho completamente inesperado; assim como a transferência de um personagem também foi algo bem legal. No geral um capítulo mais inteligente na ironia que engraçado.

Há uma tirada aqui que se perde na localização, mas a namorada de Boimler ser da USS Vancouver é uma piada típica americana de quando alguém está inventando um namoro; dizer que a pessoa mora no Canadá. Algo como por aqui as histórias mais absurdas sempre acontecerem com o amigo de um primo.

Avaliação: 3 de 5.

Bom (3/5)


S01E06: Terminal Provocations – Boimler e Mariner sofrem para ajudar um dos tripulantes mais amados da Cerritos, que foi atacado dentro da nave – ou pelo menos é o que ele diz. Enquanto isso, Tendi e Rutherford acabam se envolvendo em uma maluca aventura no holodeck.

Apesar de algumas ironias interessantes, como a rivalidade entre as diferentes escalas ou o próprio Badgy, o capítulo todo é muito bobinho, despropositado e pouco original. Salva-se um pouco o esteriótipo de um colega de trabalho como Fletcher, que, com menos bizarices, todo mundo conhece.

Avaliação: 2 de 5.

Ruim (2/5)


S01E07: Much ado About Boimler – A série consegue brilhar quando apresenta um conteúdo genuíno. Enquanto a capitão e alguns dos oficias sêniores precisam sair em missão, a Ceritos será comandada por uma velha amiga de Mariner. Boimler bem que tenta puxar o saco dos novos chefes, mas um acidente no teletransporte frustra suas expectativas.

A “tragédia” deste último protagonista rende uma trama bem única e muito engraçada, com direito até a introdução de uma inédita Seção da Frota Estelar. Ao mesmo tempo, de plano de fundo, a questão da “A Cadela” é despretensiosa mas arranca uns sorrisos. Todavia, o drama de Mariner é muito fraco, há uma tentativa de desenvolvimento de personagem, mas frustrado e pouco coerente (até sua amiga não entende o porquê de seu comportamento, mesmo tudo explicado).

Avaliação: 4 de 5.

Muito Bom (4/5)


S01E08: Veritas – Tenho um fraco por “meta-capítulos”, aqueles em que o que é mostrado depende de como os próprios personagens estão contando suas versões para nós. Aqui foi bem legal. Em um julgamento, cada um dos protagonistas é chamado para testemunhar acontecimentos de um determinado dia… que, para eles, nos decks inferiores, foi normal.

É um dos melhores capítulos a se aproveitar do conceito dos oficiais subalternos: eles não sabem exatamente a missão ou problemas que a nave está envolvida, apenas fazem sua parte. Com muito absurdo, garante algumas boas risadas. Há alguns exageros aqui e acolá, mas é um capítulo sólido em comédia e originalidade.

Avaliação: 4 de 5.

Muito Bom (4/5)


S01E09: Crisis Point – Após mais um ato impensado de insubordinação, Mariner é “condenada” pela capitão a fazer terapia com o exótico conselheiro da nave. Entretanto, isso é completamente abandonado em seguida e de repente pulamos a uma aventura no holodeck que faz referência a vários dos filmes de TOS – e algumas muito obscuras que só uma pesquisa no Memory Alpha vai responder.

Além disso, também há muitas piadas de quebra de quarta parede que são bastante elegantes – lembrar que eles estão nos anos 80 foi genial. É seguramente um dos capítulos mais engraçados (e de melhor pesquisa) da série em seu primeiro ano, embora faça muito pouco sentido.

Avaliação: 4 de 5.

Muito Bom (4/5)


S01E10: No Small Parts – No final da temporada, a tripulação descobre que Mariner é filha da capitão Freeman e assim todos tentam desesperadamente agradá-la para conquistar a simpatia da comandante da nave. Apesar de estar, como sempre, rodeado de referências – o reaparecimento de uma “espécie” muito obscura de TNG foi demais – aqui temos uma trama mais original ainda que dependente de uma série de premissas dos outros seriados.

Além a piada sobre andar na nave descalço, o destaque do episódio é um senso de continuidade, e de ações que podem ter desdobramentos no futuro dos personagens e histórias – coisa que não foi característica do seriado até aqui. Vejamos como essa perspectiva será abordada no futuro de Lower Decks.

Avaliação: 5 de 5.

Excelente (5/5)


Melhor Episódio

No Small Parts – Contando com minutos preciosos a mais no tempo total, este episódio teve um ritmo muito melhor; tanto para apreciarmos melhor o resultado, mas no desenvolvimento das tramas com bom espaço para digerir melhor os piadas em certos momentos e para acompanhar a tensão das partes “sérias”.

Da mesma forma, a trama também é mais equilibrada entre referências e histórias originais. Neste último sentido, ele também dá muito mais consistência ao seriado, pois resgata alguns personagens e situações naturais de Lower Decks, ao mesmo tempo em que cria situações com implicações para seu próprio futuro. Tudo isso em um capítulo sólido em humor e aventura.

Destaque também para o episódio inicial, Second Contact, que já parte de uma inteligente ironia desde o título. E para Much Ado About Boimler, tudo da sessão 14 é divertidíssimo!

Pior Episódio

Terminal Provocations – Há um quê de arrogância muito presente aqui; o episódio tem certeza que vamos achar a história da Dança Chu Chu Chu extremamente engraçada, sem ela sequer aparecer de fato. A princípio, o capítulo parte de uma boa premissa de decks inferiores, um colega boa praça que todo mundo gosta mas, que no fundo, não é exatamente uma bela pessoa.

Entretanto, tanto nessa trama principal, quanto na paralela, se passando no holodeck, o enredo aposta numa escalada de absurdo, com ambas as situações se tornando cada vez mais inacreditáveis. Ao final, por se tratarem de coisas muito bobinhas o tiro sai pela culatra, e você não vê a hora de tudo acabar para essas coisas malucas terminem logo e tudo se estabilize – o efeito é tão controverso, que provavelmente ao final você vai até esquecer do porquê Tandi e Rutherford estavam no holodeck antes.

Enquanto isso, em Envoys, Lower Decks ficou no lugar comum de apresentar um Klingon como a gente esperava, ao invés de subverter a coisa toda e trazer um “klingon nerd”, por exemplo. Fazendo com que boa parte do episódio fosse uma sequência de piadas previsíveis.


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Publicado por Lucas Palma

Paulistano, desde que me lembro por gente fascinado pelas possibilidades do futuro, em games, filmes e seriados, herança paterna e materna. Para surpresa geral, ao final da juventude descobri fascínio também justamente pelo oposto, me graduando e mestrando em História, pela Universidade Federal de São Paulo. Sou autor de Palavras de Revolução e Guerra: Discursos da Imprensa Paulista em 1932.

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