Marx: uma introdução

Marx: uma introdução – Jorge Grespan

Ano de Lançamento: 2021 – Minha Edição: 2021 – 99 páginas


Quem dera pelo menos um único destes sabichões online que se propõe a explicar como Marx “estava errado” perdesse algum tempinho mínimo para ler esta rápida obra. Escrita a partir de um texto um pouco mais antigo, que também tinha o mesmo objetivo, Grespan se propõe a apresentar uma dúzia de conceitos que ele considera centrais para compreender o marxismo.

Esta escolha do que se explicar é muito coerente, mas também mais focada em aspectos específicos do marxismo, em especial, os econômicos. Melhor dizendo, os conceitos marxistas, que são amplos, são recortados pelo autor em abordagens mais direcionadas à economia. O que não é a toa: uma das preocupações do autor é demonstrar como Marx está longe de estar morto – e é da abordagem econômica da propaganda liberal que a maioria dos atestados de óbito partem.

Iniciando a obra pela igualdade jurídica e alienação impostas pelo capitalismo; em que o trabalhador já não se vê mais como produtor e sim consumidor – e assim alienado do próprio trabalho – o que toma forma na igualdade jurídica com quem os explora. Ele também passa à introdução das definições (e críticas) da mercadoria e do capital, indissociáveis do tratado anteriormente; e que nem me arrisco a resumir aqui.

Chegando ao cerne da análise que Grespan faz de Marx; o fetichismo. Que pouco tem a ver com que entendemos por “fetiche” normalmente, e sim com a capacidade que as coisas (as mercadorias, o dinheiro e o capital) possuem, no capitalismo, de adquirirem vida própria – essa capacidade seria uma espécie de feitiço. Isso no sentido de que elas se excluem das relações sociais o trabalho; a mercadoria que vale tanto, não o trabalho empregado nela; o dinheiro é algo por si só, não resultado de trabalho explorado. Todavia essa ilusão, o autor aponta, é real, é assim que nossa sociedade funciona.

Ela se torna real, porque há uma consciente construção dessas “ilusões” para dar sentido ao fetichismo está no capítulo seguinte, sobre ideias e representações no marxismo; nos apresentando ao conceito de ideologia. E ela teria menos a ver com religião e cultura e mais com as formas as quais se explica, justamente, o fetichismo; todo o “economês” que justifica o capital como valor que se valoriza, ou o poder social do dinheiro, ou a alienação do trabalho – hoje talvez na forma do junk economics da internet.

Na reta final do resumo; o pequeno livro apresenta o conceito das crises econômicas para Marx – inerentes ao capitalismo. Elas vão acontecer com frequência porque tudo até aqui indica como o trabalho é excluído das contas feitas pela sociedade. Como o que tem valor no capitalismo são as mercadorias, e não o trabalho; a sociedade tenderá sempre girar em todo do valor delas – como produzi-las e vendê-las com o maior lucro – e o trabalhador fica em segundo plano, constantemente sendo sacrificado.

Essa solução é paliativa; pois independentemente e anteriormente ao capitalismo, a verdadeira medida do valor é o trabalho. Ao excluí-lo da conta, perde-se a medida real do valor do capital, e, sem ela, o próprio capital perde valor – na prática, os trabalhadores param de comprar, não pagam suas dívidas e etc. Assim, desnudam-se as ideologias que pregam o contrário, e estes momentos são os propícios para revoluções e o caminhar da história.

O que fiz acima não foi resumir o marxismo, vale lembrar, foi tentar resumir este livro em especial e isso com um propósito específico. Provavelmente ao fazer, deixei a resenha confusa e escorregando em algumas definições; isso é culpa minha, mas, queria demonstrar assim pois é um ritmo parecido com o texto de Grespan. Apesar do nome, está um pouco longe de ser uma introdução; é uma apresentação profunda e relâmpago da obra marxista (todas as centenas escritas por Marx e Engels); ou seja requer um conhecimento prévio razoável.

Muito Bom (4,5/5)

É uma excelente panorâmica da obra geral de marx: rápida, intensa e aprofundada. Entretanto, não é exatamente uma “introdução”.

Marx não era marxista: Mesmo durante sua vida, ainda que muito distante da repercurssão que viria a ter no século XX, o termo marxista passou a aparecer em determinados círculos políticos. E ele ficava extremamente incomodado com essa história toda; e dizia que, com certeza, não era marxista – o que significaria que ele seria discípulo de si mesmo.

Nesse sentido, o problema é que assim se exigiria de Marx (e Engels) uma coerência dentro das obras escritas por eles que os próprios nunca buscaram – ainda que tudo tenha sido produzido (e essa era uma diferença fundamental deles para muitos dos intelectuais do período) com o objetivo de transformar e intervir na realidade a partir de sua análise.

Como mudar o mundo

Uma compilação de textos escritos por Hobsbawm ao longo de toda sua carreira que faz uma retrospectiva tanto das obras de Marx quanto da sua repercussão, nos séculos XIX e XX.


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Publicado por Lucas Palma

Paulistano, desde que me lembro por gente fascinado pelas possibilidades do futuro, em games, filmes e seriados, herança paterna e materna. Para surpresa geral, ao final da juventude descobri fascínio também justamente pelo oposto, me graduando e mestrando em História, pela Universidade Federal de São Paulo. Sou autor de Palavras de Revolução e Guerra: Discursos da Imprensa Paulista em 1932.

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