ST: Discovery – Terceira Temporada

Chegamos ao final da terceira temporada de Discovery, que se mostrou uma edição bem diferente das demais do seriado em vários aspectos; desde o contexto, agora no futuro distante, aos roteiros mais calmos e dependendo menos de plot twists.

ATENÇÃO: SPOILERS POR TODO O TEXTO

Estes dois, grandes acertos ao meu ver; e esse futuro exigiu muito dos efeitos especiais, que mais uma vez conseguiram se superar. Da mesma forma, o posicionamento mais longe até hoje no tempo de Jornada nas Estrelas teve uma rima muito inteligente justamente com o seriado que se passou no período mais próximo (mais no passado), Enterprise.

Mas nem tudo são flores. Após um início com questões muito promissoras sendo levantadas, em uma situação inédita do universo de Jornada nas Estrelas, quando os personagens não são capazes de viajar pelas estrelas, se seguiram desenvolvimentos pouco interessantes para todas as premissas levantadas.

Os episódios, no geral, ficaram entre medianos a bons; nenhum ruim, mas também poucos que foram inspirados e talvez apenas um se torne memorável no futuro. Como nos demais anos, a serialização muitas vezes acaba apagando os capítulos individualmente da nossa memória, ficando guardados apenas alguns momentos que dizem respeito ao desenvolvimento geral da temporada.

E no caso da terceira temporada de Discovery, esse desenvolvimento foi fraco.

Agradou: efeitos gráficos, enredos menos convulsivos, alusões às guerras temporais e personagens permanecerem no futuro.

Meu principal incômodo em Discovery foi, desde a primeira temporada, com os excessivos plot twists; tudo mudava de uma hora para outra com muita rapidez. Quando parecia que as coisas iriam assentar, um personagem que você tinha aprendido que era uma coisa, na realidade era outra; universo espelho, corpos geneticamente modificados, um personagem era a mãe de outro…

Não que fosse sempre ruim, mas isso, em especial, era muito diferente do que estávamos acostumados em Jornada nas Estrelas. Nesta terceira temporada, os roteiros ficaram mais calmos e poucas foram as convulsões nos capítulos – o que exigiria conclusões mais amarradinhas ao final, que não houve, como veremos abaixo.

Da mesma forma, esperando por esse tipo de reviravolta, eu tinha certeza ao começar a temporada que os personagens voltariam ao seu tempo presente, aconteceria algo muito extraordinário que levaria a isso. O que não ocorreu, algo bem maduro por parte do desenvolvimento do seriado. E, falando em tempo, ver as repercussões das Guerras Temporais, sendo levadas a sério é muito gratificante e uma excelente ligação com Enterprise, a série anterior à Discovery, vamos nos lembrar. Essa conexão com o seriado antecedente é uma longa tradição de ST. Gostei demais disso, de longe o melhor da temporada para mim.

Por fim, foi um show de computação gráfica em todos os episódios; difícil imaginar a humanidade daqui há mil anos, por isso pesaram nessa parte, e o fizeram muito bem. O universo holográfico dos três últimos capítulos foi o ponto alto.

Não agradou: desenvolvimento geral das tramas propostas ao longo da temporada.

Ou seja, tudo relativo aos desfechos do enredo. Tudo o que foi plantado foi mal desenvolvido ao longo do seriado; primeiramente com graves problemas de ritmo.

Isso é bem sentido porque dependendo de como você olha para a temporada, parece tanto que foram poucos capítulos ou que foram capítulos demais.

Por exemplo, gastar os dois episódios com o destino de Giorgiou parece que foi demais, ou lembrar que precisamos de três para vencer o holograma. Mas, ao mesmo tempo, parece que foram escassos os confrontos com a Corrente Esmeralda ou que foi muito curto o período necessário para a Discovery ganhar a confiança da Federação. Da mesma forma, por várias semanas ficamos patinando para decifrar uma única mensagem relativa a Combustão, com recursos ridículos, tal como esquecer de clicar em alguma coisa, para render por mais um episódio de espera.

E em segundo lugar, todas as tramas plantadas foram mal desenvolvidas, vamos elencar:

  • Crítica Ambiental e a Combustão

No primeiro capítulo havia ficado bem claro, tanto que reclamei até da falta de sutileza, a proposta de uma crítica mais ecológica de Discovery. Desde a missão de Book com o resgate de “animais silvestres” até o colapso de combustíveis.

O trabalho de Book simplesmente desaparece no capítulo seguinte, e ele volta a ser um contrabandista comum. Enquanto sua empatia com os animais e plantas volta em apenas dois episódios, Santuário, na relação com as “águas vivas” e no último, com uma absurda capacidade desconhecida dele em operar o Motor de Esporos.

Mas, em especial, o que imagino que seja o maior desapontamento de todos os fãs, a resposta para a Combustão. O que poderia ser uma alegoria da utilização sem freios de combustíveis fósseis e recursos naturais em geral – algo que havia sido bem reforçado com a trama de Ni’Var – se transformou em um grande acidente não relacionado a essas questões.

Isto é, se a Federação estivesse alimentando as naves com um combustível limpíssimo e infinitamente renovável mas calhasse de uma nave com uma grávida ou um bebê cair num planeta riquíssimo nesse recurso, a criança cresceria ligada a ele e ao chorar pela primeira vez, explodiria todos os motores da galáxia da mesma forma.

  • Sexualidade

Em mais um momento de vanguarda, Jornada nas Estrelas teria um personagem não-binário, aliás, um casal assim, Adira e Gray. Mas a decisão de um ser uma alucinação do outro não foi das coisas mais interessantes e suas discussões foram dos momentos mais tediosos da temporada.

Um pouco problemático também foi essa relação dos dois como “pais” de Adira e Gray, personagens que já eram adultos independentes.

Apesar de todo um capítulo dedicado a eles, a impressão foi de pouquíssimo tempo de tela; todas as possibilidades de um personagem simbionte, para funcionar com uma espécie de guia naquele futuro desconhecido foram desperdiçadas. Adira apenas se mostrou mal-humorada, frustrada com sua vida, ou seja, uma adolescente ou jovem-adulta comum. Além disso, um grave problema, praticamente todas suas interações na nave foram com casal de Stamets e Culber, ou seja, criaram um núcleo LGBT+ separado que majoritariamente interagia entre si. Não é lá muito vanguardista.

  • Universo Espelho e “marvelização”

Logo que a Discovery encontra a Federação, uma das coisas mais intrigantes foi a reação à presença de Georgiou e a relação com o Universo Espelho. Muito mistério sobre o personagem do senhor de óculos grossos e seus objetivos; além do estado catatônico da antiga imperatriz. No final, isso não rendeu absolutamente nada.

Todas as intervenções de Georgiou ficaram repetitivas; sempre uma tiradinha, uma resposta torta, uma ironia… o único momento interessante foi quando ela se tornou a pessoa sóbria no meio da insanidade de seu universo original.

O que, por outro lado, foi um ponto baixo da temporada. Dois capítulos inteiros gastos para justificar sua saída de Discovery e a preparação de um possível spinoff protagonizado por ela na Seção 31. Houve alguma razão para que ela viajasse ao futuro junto com o resto da tripulação senão esta única, de manter a personagem em alta para um novo seriado?

Mais um sintoma da “marvelização” generalizada da Ficção e Fantasia. Ao invés de alegorias à problemas contemporâneos e especulações, que tornou o gênero grande no passado, o objetivo se tornou criar o maior número possível de referências e conexões com outras produções, atuais ou futuras. É de uma pobreza tremenda. Se está gerando muito dinheiro agora para as produtoras, os efeitos para a qualidade no futuro desse nicho podem ter terríveis.

  • Tripulação e o comando da nave

Dadas as críticas ao excessivo protagonismo de Michael em Discovery, carinhosamente apelidada de Jesus Espacial na fãbase, na terceira temporada a produção decidiu criar tramas mais dedicadas ao resto da tripulação. Inicialmente seria uma espécie de rejeição à viagem no tempo por parte dos personagens, que estariam seriamente incomodados com a perspectiva do isolamento; mas logo de início já era algo pouco promissor, pois sua principal abordagem era o velhíssimo clichê do personagem em estado catatônico.

Com alguns capítulos, eles foram se acostumando com a idéia e passaram a viver normalmente (gostaria de mais tensão aqui, mas tudo bem).

Depois as atenções ficaram voltadas ao comando da nave, passado a Saru, o que inicialmente foi extremamente interessante e um destaque merecido ao belo personagem, gostei muito. Mas logo apareceu a discussão sobre quem poderia ser o imediato já que Michael, em mais uma atuação de mártir do espaço, concordou em ser rebaixada.

(Aliás, um momento oportuno para reclamar da muleta interpretativa criada pela atriz ou pela direção: os sussurros de Michael para criar drama. Incapaz de conversar no mesmo tom dos demais personagens, ela abre a boca e você precisa aumentar o volume.)

Estamos aqui para aplaudir os protagonistas.

Em uma armadilha criada pelos próprios roteiristas, que não criaram outros personagens dignos de atenção na ponte e nem fizeram os novos interagirem com o comando da nave – uma Adira Tal mais segura e integrada aos oficiais sêniors, e afinal um hospedeiro anterior foi um almirante, poderia ser uma opção muito interessante, por exemplo – o cargo foi parar com a única outra personagem de destaque do seriado que freqüentava o comando: Tilly.

O que foi desastroso sobre vários aspectos, e forçou rebaixar mais uma vez o resto da tripulação a meros cheerleaders dos protagonistas. O resto dos oficiais, que por uma espécie psychologic plot armor, simplesmente adoraram que uma oficial de menos experiência e patente que todos eles passasse na frente de todo mundo e assumir o posto. Foram criadas várias situações dispensáveis apenas para que outros personagens pudessem demonstrar sua aprovação.


E por fim, um pequeno parênteses, sobre as implicações dos dados da esfera (da temporada anterior) se fundido ao computador da nave; uma bobagem do começo ao fim. Milhões de anos em dados e informações tem como função indicar filmes para assistir e se tornarem uma espécie de mascotes pets da nave.

Episódios:

Melhores:

Unificação III: não teve a melhor nota, mas olhando retrospectivamente é o que melhor funciona como episódio individualmente, sabendo articular conteúdos de várias séries diferentes de Star Trek – o pecado são algumas conveniências de roteiro. Além dele, Há uma maré… e Terra Firme II são bons mas muito dependentes de outros episódios. Enquanto Morrer Tentando e Povo da Terra se mostram mais completos. Todos em bom nível.

Piores:

Terra Firme I: apesar de um momento em particular muito bom – a cerimônia – o capítulo consegue concentrar vários dos principais problemas da temporada e simplesmente não deveria ter existido; a trama muito bem poderia ser contada em um único episódio, a parte II. Piratas, por outro lado, é o capítulo mais esquecível desta temporada mesmo não tendo nenhum grande erro.


E vocês, o que acharam desta terceira temporada? Contem nos comentários!


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Publicado por Lucas Palma

Paulistano, desde que me lembro por gente fascinado pelas possibilidades do futuro, em games, filmes e seriados, herança paterna e materna. Para surpresa geral, ao final da juventude descobri fascínio também justamente pelo oposto, me graduando e mestrando em História, pela Universidade Federal de São Paulo. Sou autor de Palavras de Revolução e Guerra: Discursos da Imprensa Paulista em 1932.

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