Star Trek: Lower Decks (2ª temporada) – divertida, mas formulaica

Quando Lower Decks surgiu, foi uma grande inovação para a franquia. Pela primeira vez em quarenta anos, Jornada nas Estrelas se aventuraria novamente em séries animadas, mas de uma forma não-ortodoxa, em uma animação para adultos (um gênero, por sua vez, que está em alta nas últimas décadas sem muita inovação). De qualquer forma, era novidade para os trekkers.

A primeira temporada entregou algo totalmente novo, através de uma chuva torrencial de referências e um ritmo muito corrido. Problemas corrigidos, pelo menos em sua maior parte. Por outro lado, o formato narrativo não mudou e a experiência foi se tornando repetitiva ainda que divertida.

Agradou: continua divertida e com referências profundas.

Beneficiando-se de uma sequência final de episódios muito boa, o gosto ao final é de que assistimos a uma ótima e regular temporada. Infelizmente, o que não é verdade – inclusive até, parei de ver do meio depois de um miolo bem fraquinho e mal lembrava dos capítulos iniciais para escrever este texto. Mas ainda assim há um relativa regularidade.

Todos os episódios ainda são permeados com várias referências e ironias, mesmo aqueles mais fraquinhos (resultados de ritmo, narrativas e estruturas menos inspiradas) têm algumas tiradas boas com eventos anteriores de Jornada nas Estrelas – e a dependência delas caiu suficientemente bem a ponto de não espantar quem não conhece a fundo este universo.

Felizmente, o seriado mais uma vez conseguiu divertir o suficiente para ser renovado, por mais duas temporadas!

Não agradou: maioria dos episódios ficou formulaica

Lower Decks se considera, e de fato é, uma animação para adultos. E por isso deveria tentar se distanciar de alguns dos principais recursos narrativos das animações infanto-juvenis. Elas são feitas qualquer um dos episódios que você assistisse em qualquer momento fizesse sentido; crianças dificilmente têm interesse em ficar paradas na TV por meia hora e também nem sempre vão assistir religiosamente todo o dia para acompanhar uma longa trama – que talvez não conseguiriam assimilar.

Em Scooby Doo, por exemplo, sempre tínhamos um mistério, a turma chegava lá, se separava, procurava pistas, depois sofria uma investida do vilão, com alguma correria nos cenários, e ao final eles resolviam o mistério e desmascaravam o monstro. Lower Decks em seus piores momentos não é muito mais que isso.

Duas duplas (ou os 4 são divididos em três núcleos desiguais) se dividem em tarefas pouco conectadas entre si; temos algumas esquetes, uma correria desenfreadas, uma chuva de referências e eles se encontrando ao final com uma última piada. E, para piorar, constantemente há um reset e o próximo capítulo não é muito diferente.

Há esperança, os últimos três episódios tiveram tramas autênticas, núcleos e esquetes bem conectadas e ainda foram engraçados e divertidos.

Episódios

S02E01: Strange Energies – Durante uma missão de “Segundo Contato”, na qual são estabelecidos os parâmetros burocráticos da relação entre o novo planeta e a Federação (tema do episódio inicial da série), Mariner, com a anuência de sua mãe, a capitã desesperada pela amizade da sua filha, inventa de dar uma repaginada no visual de um local e acaba despertando uma energia misteriosa que torna o comandante Ranson um Deus.

O episódio deposita todo seu esforço nessa piada que eu descrevi, e que na realidade não é lá tão interessante, usando referências óbvias do segundo piloto de TOS, e com muita preguiça de desenvolver as esquetes, que são apenas jogadas uma atrás da outra para nós. Orbitando em torno disso temos diversas tramas B que, também fracas de humor, vão do nada a lugar a algum. A relação entre mãe e filha volta a estaca zero, e a relação entre os amigos que se amam também não sai do lugar.

Avaliação: 1.5 de 5.

Muito Ruim (1,5/5)


S02E02: Kayshon, his Eyes Open – Eu não conseguia parar de rir de todos os diálogos envolvendo o tamariano que está no título do capítulo; são uma sequências de piadas muito bobinhas e completamente non-sense, mas irresistíveis sobre a inabilidade dele com o idioma. Infelizmente o personagem fica pouco em cena; a Cerritos precisa ajudar a limpeza de uma estação espacial habitada por um colecionista recém falecido – enquanto isso, Boimler vai se envolvendo com missões de alto risco na Titan.

Curiosamente, o armazém dos colecionadores, que seria um prato cheio para uma enxurrada de referências, é relativamente pouco utilizado e temos alguns easter eggs pontuais. Os dilemas lá acabam envolvendo a adaptação dos amigos com o novo tripulante dentro da equipe, arcos que são competentes mas não saem do lugar-comum. Por outro lado, o pouco que podemos acompanhar de Boimler na Titan é divertido e consegue fazer boas ironias com a Enterprise D – e subvertê-las em sequência.

Em mais uma bola fora, o botão de reset é apertado novamente e Boimler inexplicavelmente volta ao posto e local prévio – ao menos, como consequência de uma boa piada.

Avaliação: 3 de 5.

Bom (3/5)


S02E03: We’ll always have Tom Paris – Enquanto Boimler desesperadamente corre atrás do protagonista de Voyager (adorei a questão das abreviações, aliás) para ganhar um autógrafo, Rutherford quer saber como Shaxs voltou a vida, e as meninas saem em uma missão conjunta para recuperar um artefato precioso da família da Dra. T’Ana.

Em um capítulo de 20 minutos com três tramas separadas, voltamos um pouco ao ritmo de correria da temporada anterior. Fazendo justiça, os arcos de Boimler e de Sam não sofrem com isso, na realidade, são tramas com o objetivo de fazer uma única piada cada. A do autógrafo é uma perda de tempo total; quando fui reasistir, achei que Paris nem apareceria neste capítulo, e essa seria a piada; já a ironia da volta do mundo dos mortos, eu gostei, apesar de ser mais um reset na estória geral. A reação dos personagens lembrou muito o livro Redshirts.

Por outro lado, a aventura de Tendi e Mariner sofreu com a alta velocidade do episódio. Começou engraçadinho e parecia que ia engatar quando vemos a cientista agindo como uma Orion “de verdade” e poderia ter muita coisa para se aproveitar ali; mas em segundos tudo dá errado e o foco é fugir (coisa que já havia acontecido 2 ou 3 minutos antes com as duas) – e tudo isso para uma piadinha muito previsível sobre gatos.

Avaliação: 2 de 5.

Ruim (2/5)


S02E04: Mugato, Gumato – A Cerritos é enviada para investigar uma aparição do temível Mugato em um planeta do qual ele não é nativo; Boimler e Rutherdford são parte da missão, mas estão desconfiados do passado de Mariner. Enquanto isso Tendi recebe uma tarefa impossível da Dra. T’Ana: examinar todos os tripulantes atrasados com os seus periódicos.

A piada central do episódio, referente à pronúncia do assustador gorila, é fenomenal, ri todas as vezes que ele foi chamado de uma maneira diferente – o que encontra eco na dificuldade real encontrada pelos atores nas gravações do episódio onde ele foi introduzido na série Original.

Gostei também da aventura no planeta, algumas piadas pontuais foram divertidas, como a do biólogo especialista em Mugatos, mas achei que a questão do sexo dos animais foi um pouco além e acabou tendo um pouco de mau gosto – parar no acasalamento deles teria sido na medida. Já o arco do passado obscuro de Mariner acaba nunca tendo força pelo padrão do seriado de manter os personagens sem muita profundidade.

Avaliação: 3.5 de 5.

Bom (3,5/5)


S02E05: An Embarrassment of Dooplers – Nossos (anti)heróis serão finalmente recompensados. Após transportar em segurança um bizarro alienígena que não pode se sentir mal ou triste, senão se duplica, eles poderão entrar na festa mais badalada do oficialato da Frota Estelar – bom, mais ou menos, enquanto se preparava para atracar na base, tudo passa a dar errado com o duplicador.

Mais um episódio de pura correria, boa parte do capítulo é destinado aos personagens correndo e fugindo, em ambos os núcleos. Da mesma forma, se torna repetitivo tanto o traço de Mariner ser uma super-mulher, capaz de ter feito tudo em seu passado e fazer qualquer coisa no presente; quanto o chove-não-molha entre Rutherford e Tendi.

O roteiro aposta tudo em “piadas de festa” e no final temos um capítulo repetitivo e pouco inspirado que pode ser pulado sem problema.

Avaliação: 1 de 5.

Muito Ruim (1/5)


S02E06: The Spy Humongous – A Cerritos é encarregada de negociar um cessar-fogo com os Pakleds, mas assim que a capitão se transporta, um dos alienígenas está a bordo da nave pedindo asilo político. Enquanto isso, os protagonistas dos deques inferiores recebem um dos trabalhos mais inglórios possíveis; retirar lixo “especial” das cabines dos oficiais.

Tudo é engraçado aqui; ri todas as vezes que os Pakleds trocaram o nome da capitão; gostei do espião a bordo (ainda que poderia ter mais tempo de tela); também achei todos os “lixos” bem divertidos, extrapolando vários clichês da ficção, e o arco de Boimler também é bacana e encaixa muito bem com a proposta do seriado – eu particularmente gostei muito de cena dos vários discursos inócuos no refeitório.

Além do bom humor, o ponto forte é o mesmo ponto fraco aqui. As atividades dos protagonistas têm bem a pegada de deques inferiores e funcionam bem no universo dos personagens, não são missões de oficiais superiores. Mas ao mesmo tempo, e justamente por isso, eles estão completamente desconectados da trama principal do episódio referente aos Pakleds.

Avaliação: 4 de 5.

Muito Bom (4/5)


S02E07: Where Pleasant Fountais Lie – A mãe do engenheiro chefe da Cerritos, o Tenente Comandante Billups, pede ajuda para consertar sua nave. Mas, por um acaso, ela é a rainha de um planeta com uma curiosa contradição: com uma estética da idade média é habitada por uma civilização totalmente entregue ao sexo. A relação é algo tão central, que uma vez que Billups perca sua virgindade, ele se tornará o novo monarca local.

Todo esse arco do engenheiro promete mais do que dá realmente; há coisas muito legais sobre a estética e o lore medieval – gostei muito da questão dos nomes forçados para parecem magia – entretanto, achei que a piada sobre a virgindade foi longe demais sem realmente ficar engraçada em momento algum.

E, na realidade, quem rouba o capítulo é o supercomputador dublado por Jeffey Combs (Shran, Weyun), na trama B envolvendo seu transporte por Boimler e Mariner. Mas também. para além dessa dublagem, não há muita coisa entregue por essa aventura paralela.

Avaliação: 2.5 de 5.

Mediano (2,5/5)


S02E08: I, Excretus – Uma instrutora da Frota estará na Cerritos fazendo uma avaliação geral de toda a tripulação através de simulações em holodecks – com um pequeno detalhe, as posições estarão invertidas; os deques inferiores estarão em missões de oficiais sêniores e vice-versa.

O grande mérito deste capítulo é um roteiro muito bem organizado, onde várias esquetes tomam lugar simultaneamente mas fazendo parte de uma mesma trama. Todas as simulações são muito engraçadas e usam as referências de maneira orgânica. Da mesma forma, conseguimos manter o foco nos protagonistas do seriados e injetar pontualmente a capitão e seus oficiais fazendo o trabalho “inferior”.

Infelizmente, no ato final, o episódio perde um pouco de força para solucionar a questão envolvendo o “mistério” por trás do treinamento de forma simplória; um pouco inverossímil e sem sentido, mesmo para uma animação sempre bom frisar que isso é levando em conta.

Avaliação: 4 de 5.

Muito Bom (4/5)


S02E09: wej Duj – A sina dos oficiais de deques inferiores ultrapassa os limites planetários e civilizatórios; vamos acompanhar também como é o dia-a-dia daqueles que sujam as mãos entre os Klingon e os Vulcanos, enquanto a Cerritos concede um dia de folga para toda a tripulação.

Novamente, um episódio extremamente organizado articulando várias esquetes simultâneas, intercaladas mas parte de uma trama interconectada – e que rende até mesmo algumas pequenas reviravoltas e momentos de tensão – e tudo sem perder a graça em momento algum, e sem perder a organicidade, como se uma coisa piada levasse sempre a outra.

O ponto fraco acaba sendo justamente o arco “principal” de Boimler em busca de um amigo, mas há algumas tiradinhas que arrancam algum sorriso, e não tira o brilho de um ótimo e engraçado episódio.

Avaliação: 5 de 5.

Excelente (5/5)


S02E10: First first Contact – A Capitão Freeman recebe a oferta de uma promoção para uma nave mais importante, e comandará sua última missão pela Ceritos; o auxílio em um Primeiro Contato a ser realizado pela imponente USS Archimedes. O sistema onde o planeta se localiza é lar de um planetóide que pode ameaçar a viagem.

Uma obra prima de uma animação sobre Jornada nas Estrelas; são várias as referências à Nova Geração, começando pela própria capitão Gomez, passando pelo Dia do Capitão e a maravilhosa esquete referente aos Cetacean Ops. Tudo perfeito, bem concatenado e bem escrito; uma série de piadas que não só não atrapalham, como fazem parte do andamento sério da estória.

Menos formuláico, mais autêntico e sabendo usar os limites mais generosos de uma animação, cria uma missão muito legal e uma ação em cima dela também muito interessante e que consegue se manter tensa – toda a sequência das placas se soltando é ótima, o final com a alteração e operação da ponte naquelas condições entra para o rol dos melhores momentos de Star Trek.

Avaliação: 5 de 5.

Excelente (5/5)


Melhor Episódio

First first contact – Simplesmente um episódio 6 de 5. Divertido e engraçado o tempo todo, com uma trama que consegue ser autêntica ao mesmo tempo que usa uma porção de referências. Tudo funciona tão bem que todos os episódios excelentes de Lower Decks deveriam ter a nota reduzida em relação a este aqui.

E, além deles, toda essa sequência final é muito divertida, em especial o Wej Duj, que nos dá relances da vida dos deques inferiores em outras naves.

Pior Episódio

An embarassement of Dooplers – Poucas coisas são tão entediantes quando aquele lugar comum de humor para jovens adultos (pós-adolescentes) que são piadas de “festa e curtição”, quem será que eles pensam que são os expectadores dessa série? Mas para além disso e de piadas sem graça, como a “central” sobre o personagem que se duplica, em ritmo e criatividade o episódio contém os pontos mais fracos desta temporada e de Lower Decks no geral.

Uma correria constante, formulaica, dependendo exatamente das mesmas rotinas de sempre, Mariner com um passado ultra nebuloso e com habilidades astronômicas contracenando com o “nerd” Boimler, enquanto Tendi e Rutherford ficam no limiar do romance e da amizade mais sincera e pura o possível. Muito repetitivo, também são problemas encontrados em We’ll Always Have Tom Paris, que sacrifica uma aventura interessante de Tendi para manter um ritmo alto de piadas e referências; e Strange Energies é apenas uma tonelada de referências e esquetes jogadas uma atrás da outra.


Jornada nas Estrelas: Lower Decks


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Publicado por Lucas Palma

Paulistano, desde que me lembro por gente fascinado pelas possibilidades do futuro, em games, filmes e seriados, herança paterna e materna. Para surpresa geral, ao final da juventude descobri fascínio também justamente pelo oposto, me graduando e mestrando em História, pela Universidade Federal de São Paulo. Sou autor de Palavras de Revolução e Guerra: Discursos da Imprensa Paulista em 1932.

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