O Banqueiro Anarquista

O banqueiro anarquista e outros contos – Fernando Pessoa

Ano de Lançamento: 1907 e 1922 – Minha Edição: 2015 – 90 páginas


Este é uma das raras prosas que Pessoa publicou em vida, e um curioso personagem. Detentor do talvez mais perverso meio de exploração capitalista, o protagonista deste breve conto é um banqueiro que luta contra o sistema – e não, não é o Eduardo Moreira. Além de O Banqueiro Anarquista, (1922) o pequeno livro também conta com outros duas estorinhas; o inacabado A Porta (1907) e o sombrio Um Jantar Muito Original (1907).

Como nas obras em prosa que tive contato dele, as Novelas Policiárias, os textos são basicamente monólogos de um personagem expondo suas teorias sociais ou psicológicas – quase um livro de Filosofia. A única exceção é Um Jantar Muito Original, no qual temos um movimento, duas cenas diferentes, personagens variados interagindo e um mistério. Este conto é um pouco previsível, mas consegue te deixar bastante apreensivo sobre o desfecho e devemos nos lembrar que é um texto com mais de 100 anos de idade.

Enquanto isso, A Porta é um meio termo. Não chega a ter movimento, conta com algumas teorias do narrador, mas também algumas descrições e ações, não necessariamente se comportando como uma obra filosófica. Achei curioso como o texto acaba dando espaço, não sei se deliberadamente, a um humor bastante non-sense, algo bastante pioneiro, se era a intenção de Pessoa.

Já aquele texto que dá o título ao livro, algo que imaginei que poderia ser próximo a alguma obra como O Alienista, uma ironia magistral, é o menos interessante da compilação. Bastante maçante, temos apenas espaço para teorias sócio-políticas do personagem-título, que palestra para o narrador.

Argumentando que qualquer tentativa de mudança social incorre em outras formas de opressão, a partir do estabelecimento de hierarquias ou burocracias em partidos ou movimentos sociais, o Banqueiro Anarquista alega que a libertação real da humanidade apenas pode partir do indivíduo lutando isoladamente contra as amarras do sistema (ficções no caso do conto). Algo que ele conquistou com sua completa independência financeira. Ao ser banqueiro e contribuir com a exploração, ele justifica, está se aproveitando de uma opressão já existente e não criou uma – criar uma nova opressão é invariavelmente mais grave que tolerar a opressão que já existe. Isso chega ao ponto do personagem alegar que libertar um escravo cria uma nova tirania àquele homem ao forçá-lo a viver de forma diferente.

Quem diria, encontrei um proto-ancapista em Fernando Pessoa.

Ruim (2/5)

Com a exceção de um dos três contos compilados nesta obra, o que temos é uma prosa maçante de pessoa. Mais uma oportunidade de monólogos de personagens sobre teorias sociais e políticas, com destaque negativo ao que dá título ao livro.

Sátira Dialética – é assim que Pessoa classificou o conto O Banqueiro Anarquista em correspondência a um amigo. Apesar de argumentar detalhadamente e, a primeira vista, de forma convincente, a proposta do protagonista nunca deixa de ser absurda. Algo simbolizado pelo narrador, que simplesmente se cansa da conversa e decide concordar com as proposições do nobre financista para poder se levantar da mesa onde estavam jantando.

No contexto, os Anarquistas eram o principal movimento de esquerda em Portugal. Os Comunistas, Socialistas e Social Democratas chegam depois sob influência da Terceira Internacional – e logo são marginalizados e reprimidos pelo Salarazarismo. Não consegui entender nem buscar muitas informações sobre qual é que é a de Pessoa nessa obra; se é criticar justamente, e superficialmente, os movimentos de mudanças sociais ou, no polo completamente oposto, expor ao ridículo qualquer outro pensamento que ache desculpas absurdas para ser contra a transformação da sociedade.


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Publicado por Lucas Palma

Paulistano, desde que me lembro por gente fascinado pelas possibilidades do futuro, em games, filmes e seriados, herança paterna e materna. Para surpresa geral, ao final da juventude descobri fascínio também justamente pelo oposto, me graduando e mestrando em História, pela Universidade Federal de São Paulo. Sou autor de Palavras de Revolução e Guerra: Discursos da Imprensa Paulista em 1932.

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